ana rita guerra

Onde foi parar o Foursquare

Foto: REUTERS/Sigtryggur Ari
Foto: REUTERS/Sigtryggur Ari

É possível que muitos ‘mayors’ do passado se perguntem se o Foursquare ainda existe.

A mania de fazer check-in em tudo o que era sítio para ganhar pontos e espiar os amigos começou a desvanecer-se depois do pico de 2013, em que muitos julgaram que este era o próximo Twitter. Há dois anos, os fundadores do Foursquare tomaram uma decisão que confundiu os utilizadores, modificado o seu logótipo de forma quase irreconhecível e separando o serviço em duas aplicações – o Foursquare para a exploração local, a Swarm para os check-ins e a competição com os amigos.

Alguém sabe o que aconteceu a seguir? O Foursquare desapareceu do radar, e pouco ou nada de relevante se passou. Usar o GPS dos smartphones para adicionar uma tag geográfica é coisa que qualquer aplicação pode fazer, mas quando os utilizadores pensam em consultar as críticas a um local vão ao Yelp, à página no Facebook ou a apps locais, tipo Lifecooler. A concorrência é feroz. Então o que tem o Foursquare de diferente?

Quase sete anos depois da sua criação, uma base de dados inigualável de lojas, ginásios, escritórios, casas particulares, jardins, casas-de-banho, praias, quiosques, roulottes e o que mais milhões de pessoas tenham adicionado à plataforma. É essa a mina de dados que os novos investidores da empresa querem explorar neste momento, já que o crescimento exponencial em termos de utilizadores está posto de parte.

Eis o que sabemos nesta altura: o co-fundador Dennis Crowley deixou o cargo de CEO e passou a chairman executivo em Janeiro, entregando o lugar ao até então director de operações Jeff Glueck – um executivo mais velho (39 anos) e com experiência dentro da empresa. Ao mesmo tempo, o Foursquare conseguiu uma nova ronda de financiamento (Série E) de 45 milhões de dólares, mas a custo de uma desvalorização brutal: a avaliação está agora entre os 250 e os 300 milhões de dólares, menos de metade do que valia em 2013. Porquê ninguém explica. Certo é que Jeff Glueck se tem desdobrado em entrevistas a vários meios para explicar que a empresa nunca esteve tão bem. Não será pelo número de utilizadores: tem agora 50 milhões entre as duas aplicações, o que é muito pouco para a rede que ia ser o novo Twitter (embora a verdade é que nem o Twitter consegue ser o novo Twitter neste momento).

Entra aqui a tal base de dados. Enquanto não estávamos a olhar, o Foursquare construiu uma série de serviços de analítica e personalização da publicidade para rentabilizar a localização dos utilizadores – mesmo quando estes não fazem check-in. É genial: o Foursquare não vai sequer precisar de atrair mais utilizadores para a plataforma.
Um destes serviços é o Pinpoint, que permite aos anunciantes chegarem às audiências mais apropriadas. O Foursquare é das poucas aplicações que consegue aceder aos dados de GPS dos smartphones e saber que sítio é aquele, não em termos de coordenadas mas em termos do local específico – uma loja, um ginásio. A empresa criou o seu próprio serviço de localização, Pilgrim, que consegue identificar onde a pessoa está mesmo sem check-in. Com a ferramenta Place Insights, é possível às empresas agregarem e analisarem tendências de comportamento dos utilizadores, de forma anónima, podendo tomar melhores decisões no que respeita, por exemplo, ao bairro onde devem abrir uma loja nova. Se há mais gente concentrada num quarteirão ao Sábado de manhã, porque não correr ali uma promoção?

Foi por isto que um dos investidores de topo no Foursquare, Fred Wilson da Union Square Ventures, disse num evento recente em Los Angeles que o Foursquare é agora uma empresa de dados e não uma rede social. Que o negócio agora é recolher todos estes dados e usá-los numa plataforma que os programadores de outras apps/marcas podem utilizar para melhor direccionar os seus esforços. Imaginem isto: Apple, Twitter e Pinterest são algumas das empresas clientes destes serviços.

Não há dados concretos sobre o volume de negócios anual do Foursquare, mas Glueck e Crowley garantem que 2015 foi o melhor ano de sempre em receitas, pelo crescimento destas ferramentas. Não é certo que isto seja suficiente para que a empresa evite ser comprada por uma gigante ou sofra nova desvalorização, mas é um caminho interessante numa altura em que toda a gente anda a tentar monetizar o móvel e a geolocalização.

Por outro lado, também nos lembra algo de que nos esquecemos frequentemente: não há almoços, redes ou apps grátis. Se calhar estamos a dar demasiado da nossa privacidade em troca de pouca coisa. Mas pelo menos aqueles anúncios que vimos no smartphone são mesmo aquilo de que andávamos à procura – eles parece que adivinham(!).

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