Opinião

Ontem e hoje: as pessoas não são números

Maria João Gala / Global Imagens
Maria João Gala / Global Imagens

A arqueologia industrial é, não raras vezes, instrutiva para se compreender as dinâmicas laborais hodiernas. O Museu da Chapelaria, em São João da Madeira é, disso, exemplo.

No respetivo complexo, onde operou a maior fábrica da Península, há um monumento, designado Unhas Negras, homenageando os antigos chapeleiros que assim ficavam com as unhas em resultado dos vapores exalados pelas caldeiras primitivas. São eles que, por volta de 1914, vindos de todo o país ali se concentraram para protestar contra o impacto da mecanização no emprego.

A história é elucidativa a vários títulos. Evidencia, desde logo, o nosso atraso industrial: um movimento semelhante, ocorrera na indústria têxtil inglesa, cem anos antes. Daí vem o termo ludita, em função do apelido (Ludd) da personagem, fictícia (?), que encabeçaria o protesto. Em ambos os casos, quem veio para a rua não eram operários indiferenciados mas os artesãos mais qualificados que, com a mecanização e a divisão extrema do trabalho (os Tempos Modernos de Chaplin), viam o seu ganha-pão ameaçado.

É certo que a mecanização trouxe aumentos da produtividade, permitindo a massificação da produção, o crescimento do emprego e a melhoria do bem-estar. Só que, como refere Frey em Tecnhnology Trap, esse foi um processo demorado: as suas vítimas iniciais não viveram para usufruir de tal prosperidade.

A robotização e a aplicação da inteligência artificial não apenas à indústria mas, em especial, aos serviços ameaçam replicar, em escala aumentada, o ocorrido há 200 anos. Um estudo da CIP dá conta de que, em Portugal, estarão em risco mais de 1 milhão de empregos. Uma parte será recuperada mas requerendo outras qualificações. Por envolver pessoas, a questão não pode ser tratada como mera tecnocracia aritmética. No século XIX, o movimento ludita foi esmagado, com a legislação laboral até a ser alterada para legitimar a violenta repressão. Tal será impossível hoje. Contudo, os potenciais afetados constituem campo fértil para o populismo. A salvaguarda da democracia torna imperioso um plano de requalificação e apoio.

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