Opinião

Opinião. A desigualdade como travão económico

Ángel Gurría preocupado com falta de medidas

Que país queremos ter dentro de dez anos? Não vejo nem ouço nenhum político a responder a esta pergunta

A desigualdade é um obstáculo ao crescimento. A conclusão é do secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría. Avisa que “as famílias mais pobres ainda não recuperaram o poder de compra que tinham em 2006” e esse é um sinal de preocupação forte. A desigualdade social impede o crescimento económico, defende. Como tal, considera que se deve recorrer a apoios sociais e à qualificação para lidar com fenómenos como globalização e digitalização. Vários países da Europa já iniciaram esta discussão, até porque não vale a pena tapar o Sol com a peneira.

Há talentos que não vão adaptar-se à digitalização e à revolução da indústria 4.0. Um futuro cada vez mais tecnológico pode ser também um futuro mais desigual. Se à partida se democratizam soluções e serviços, também se afunilam competências e é preciso ter essa consciência e atuar a tempo e horas. Para o responsável da OCDE, que reúne 35 países, incluindo Portugal, é preciso atuar em três frentes: “ajudar os trabalhadores mais prejudicados” (melhorando a sua empregabilidade e mobilidade para setores ou regiões em desenvolvimento), através da educação e da qualificação; “infraestruturas de qualidade e boas políticas de transportes, com investimento na “conectividade física e digital” e na “inovação e desenvolvimento” (I&D); “condições para que empresas prosperem da economia global”, diminuindo “barreiras” burocráticas e promovendo “a concorrência”. Nestes três pilares, Portugal ainda precisa de trilhar um longo caminho. Com tempo e estratégias definidas, poderemos ter a capacidade de nos munirmos de ferramentas para enfrentar melhor o futuro.

Se utilizarmos o tempo que nos resta em guerras políticas, então perderemos a corrida da competitividade e sofisticação. Se queremos ser um país vencedor e coeso é bom tomar nota de uma outra frase proferida por Ángel Gurría: “Hoje, temos a convicção de que a justiça social é uma questão ética, moral, política, mas é também uma questão económica. Uma desigualdade crescente torna-se um obstáculo muito importante para o crescimento”, afirmou. Impressiona-o o facto de “a média dos rendimentos dos 10% mais ricos ser agora dez vezes superior à média dos rendimentos dos 10% mais pobres” quando “este valor era somente sete vezes superior há 25 anos”. E de “em Portugal este rácio [ser] superior à média da OCDE”. A mim também me impressiona e preocupa. Que país queremos ter dentro de dez anos? Não vejo nem ouço nenhum político a responder a esta pergunta.

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