Opinião: João Almeida Moreira

A mãe de todos os dramas

Neymar Jr.

O Brasil não pode ser campeão mundial de futebol a cada quatro anos, por mais que isso custe à exigente torcida dos canarinhos, mas um dado subjetivo confirma a superioridade do país no jogo mais popular do mundo: pudessem os brasileiros participar com uma segunda seleção e essa equipa apurar-se-ia seguramente, para os oitavos-de-final, os quartos-de-final, por aí. E uma terceira? Talvez também.

E porque é que o Brasil tem tanta “quantidade de qualidade” de jogadores de futebol? Porque o futebol é acessível a todos, dos ricos aos pobres, dos nordestinos aos gaúchos.

Transportemos essa igualdade democrática de oportunidades para o campo da educação: quantos médicos, advogados, engenheiros, políticos e outros profissionais de excelência produziria o quinto país mais populoso do mundo se todos tivessem acesso, como têm a uma bola, a bons professores e boas escolas?

Fosse o país economicamente mais justo, sem diferenças salariais tão imorais, e não haveria nem uma aproximação da criminalidade que o atinge – e que levou a que a maioria dos eleitores votasse, sem sequer se assustar com isso, num candidato que faz do gesto de disparar uma arma de fogo a sua imagem de marca e no discurso a favor de bandidos mortos o seu slogan.

Não sofressem, segundo estudo da UNICEF, 61% das crianças e adolescentes brasileiros algum tipo de privação, seja de saneamento, de educação, de água, de informação, de moradia, de trabalho infantil, e o “país do futuro”, como profetizou Stefan Zweig nos anos 40 do século passado não seria, 80 anos volvidos, o país do futuro adiado.

A educação, a segurança e a saúde são causas ou consequências, afinal de contas, da mãe de todos os outros dramas do Brasil: a desigualdade.

Ora, segundo estudo da Oxfam – organização fundada no século XIX em Oxford por um religioso que atua hoje em quase 100 países – depois de 15 anos seguidos a diminuir, a desigualdade no Brasil cresceu novamente em 2017.

O rendimento dos 50% mais pobres caiu 3,5%, o dos 10% mais ricos subiu 6%. No índice de desenvolvimento humano o país está em 79º, imediatamente atrás, imagine-se, da Venezuela, usada quotidianamente como sinónimo de atraso. Pela primeira vez desde 1990, houve alta na mortalidade infantil. O volume de gastos sociais, fator essencial para diminuir a desigualdade, baixou aos níveis de 2001. A diferença salarial entre brancos e negros e entre homens e mulheres cresceu pela primeira vez em 23 anos. O rendimento médio do 1% mais rico é 36,3 vezes maior do que o dos 50% mais pobres. O Brasil é o nono país mais desigual do mundo.

Para rematar, os seis brasileiros mais ricos concentram juntos a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres. E com seis não se faz uma equipa de futebol, quanto mais duas ou três.

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