Ricardo Reis

Opinião. A paixão pelo ciclismo

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Há uma década que damos um subsídio milionário às bicicletas criando ciclovias. Ao mesmo tempo, conduzir um carro numa cidade é cada vez mais caro

Neste ano, mais uma vez subiu o preço do maço de tabaco. Há décadas que aumentamos impostos, expulsamos os fumadores dos locais públicos e intensificamos a censura social sobre quem fuma. Este esforço de saúde pública é normalmente justificado pela externalidade que o fumo de terceiros impõe sobre quem não fuma. Sabendo que o fumo alheio aumenta as minhas hipóteses de morrer de cancro, o esforço antitabagista é uma forma de proteger quem não fuma da escolha dos outros.

O passo seguinte nas campanhas contra o tabaco é aumentar as taxas moderadoras da saúde para quem fuma. Porque tratar quem tem cancro do pulmão é caro, os fumadores impõem um custo sobre os sistemas nacionais de saúde e logo sobre todos os contribuintes. Por isso, há quem defenda que quem fuma devia pagar mais. À primeira vista, este argumento faz sentido. Se eu acumular multas por excesso de velocidade, a minha seguradora automóvel vai cobrar-me mais pelo seguro. Quando eu escolho comportar-me de uma forma mais arriscada, aumento os custos do seguro sobre todos os outros participantes, logo devo pagar mais pelo seguro de saúde, público ou privado.

No entanto, este argumento é perigoso. Em 2015 em Inglaterra, por cada mil milhões de milhas percorridas por ciclistas, houve 5800 acidentes que levaram a ferimentos ou mortes. Para comparação, a mesma distância a pé leva apenas a 2100 fatalidades. Ir de carro é ainda mais seguro. Andar de bicicleta no meio do trânsito é uma atividade arriscada; se for de motorizada, então o risco de morte aumenta quase quatro vezes.

Tratar todos estes acidentes no hospital custa muito dinheiro, já para não falar no custo para a polícia e nas filas de trânsito que provocam. Usando o argumento antifumadores, deveríamos por isso cobrar mais de contribuição de saúde a quem escolhe passear ou ir para o trabalho de bicicleta. Tal como os fumadores, eles escolheram uma atividade arriscada quando tinham alternativas mais seguras. Se para si discriminar os ciclistas seria repulsivo, então pense porque é que a discriminação dos fumadores não o incomoda tanto.

O ciclismo tem um papel estranho nas políticas públicas de outra forma. Há uma década que damos um subsídio milionário às bicicletas criando extensas ciclovias. Ao mesmo tempo, conduzir um carro numa cidade é cada vez mais caro e incómodo, no curto prazo por causa das obras para as ciclovias, e no longo prazo porque há menos faixas de rodagem e menos lugares de estacionamento. No entanto, ao mesmo tempo, a externalidade negativa causada por andar de carro tem diminuído imenso. Em termos ambientais, os carros hoje são muito menos nocivos do que eram uma década atrás.

As razões oferecidas para justificar a perseguição ao fumador e ao automobilista, enquanto ao mesmo tempo se apoia o ciclista, não batem certo. Vale a pena pensar mais porque é que a Volta a Portugal já não atrai muitos espetadores, mas a paixão dos governantes em pôr as pessoas a pedalar não parece ter fim.

Professor de Economia na London School of Economics

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