Opinião

Opinião. A última sexta-feira negra

Foto: DR
Foto: DR

Os consumidores americanos bateram o recorde de compras online na Black Friday, gastando 5 mil milhões de dólares em 24 horas

Às três da tarde do dia de Ação de Graças, a fila de espera para comer no restaurante-buffet Chuck-A-Rama dava a volta para o parque de estacionamento. Em Provo, Utah, onde as famílias são grandes e este é um dos dias mais importantes do ano, criou-se esta tradição de ir em romaria ao buffet onde se pode comer até rebentar – ou até que batam as seis da tarde, hora em que o restaurante fecha neste dia.

É precisamente a essa hora que se abrem outras portas. As grandes cadeias de retalho começaram a antecipar a loucura da Black Friday abrindo ao final de tarde do dia de Ação de Graças, com descontos substanciais. Ali perto, o Walmart tinha filas a perder de vista na secção de eletrónica, mas nem sinal das famosas bulhas de clientes pelo último televisor ao preço da chuva. Algumas prateleiras ficaram vazias num instante e os parques de estacionamento estavam cheios. A cadeia de retalho Kohls, que vende desde roupa e calçado a pulseiras de Fitness e perfumes, estava com descontos de 50% a 70% e parecia ter sido atacada por gnomos enraivecidos. No entanto, foi fácil entrar e sair destas lojas, ao contrário do que acontecia há quatro ou cinco anos. Como? Porquê?

A explicação não é um desinteresse pela Black Friday nem contenção de gastos, pelo contrário. A mudança de comportamento dos consumidores é um reflexo das variantes que compõem agora os seus hábitos de compra e a própria estratégia dos retalhistas.

Segundo a Adobe Digital Insights, os consumidores americanos bateram o recorde de compras online na Black Friday, gastando 5 mil milhões de dólares em 24 horas. É um aumento de 16,9% face ao ano passado e ajuda a explicar porque é que já não se vê a algazarra de antes dentro das lojas – muita gente agora fica em casa, a desenjoar dos excessos gastronómicos do Dia de Ação de Graças, de pantufas nos pés e computador no colo. Só nas primeiras cinco horas do dia, a Amazon vendeu 200 mil brinquedos, segundo a CNN. A gigante online reportou níveis recorde de encomendas, embora não tenha fornecido números concretos.

A outra justificação para o fenómeno é que a Black Friday deixou de ser um único dia de descontos incríveis. Não é raro ver asteriscos dizendo que os descontos são válidos entre dia X e Y, normalmente a quinta-feira de Ação de Graças e o domingo seguinte. Logo depois vem a Cyber Monday, pelo que quem não conseguir apanhar aquele smartphone maroto por menos 200 dólares na sexta-feira volta a tentar na segunda. Diluiu-se a urgência da compra. As marcas tentam bater-se umas às outras com mais descontos e ofertas exclusivas, por exemplo para membros do Amazon Prime ou do cartão de crédito da Target. A Forbes aponta, e bem, que a Black Friday se transformou no Black November. É quase um mês inteiro de compras desenfreadas, em preparação para o Natal, acompanhando o frenesim das decorações natalícias e as luzes extravagantes nos jardins das casas.

A CNN Money também questiona se esta foi a última verdadeira Black Friday, tendo em conta que, pela primeira vez, os dados da National Retail Federation apontam para uma preferência por compras online (59%) contra compras no retalho físico. É uma mudança extraordinária – e ainda assim previsível, com mais gente a usar o smartphone para fazer compras e empresas como a Amazon a tornarem cada vez mais fácil comprar em dois ou três toques.

O ambiente económico nos Estados Unidos ajuda a esta transformação. O desemprego está em mínimos de 17 anos e o crédito, que sustenta os hábitos de consumo dos americanos, é barato e fácil de obter. Uma receita magistral para as compras por impulso e menor pressão para conseguir aquele televisor UHDTV por 350 dólares num dia específico.

A discussão, por aqui, faz-se em torno da importância das lojas físicas. Vão desaparecer? Vão tornar-se cada vez mais digitais? O seu papel mudará, com certeza. Mas não esqueçamos que a Amazon comprou a cadeia de supermercados Whole Foods por alguma razão, e que continua a trabalhar no seu projeto de ter lojas físicas onde os consumidores não precisam de usar cartões nem dinheiro para pagarem as compras. Também não deixa de ser interessante que a Black Friday, um evento tão tipicamente americano, tenha passado a fronteira para tantos outros mercados, como o brasileiro e o português. Em todos eles, é preciso fazer um rebranding. Porque se há coisa de que o consumidor nunca se fartará é de um grande desconto, não importa o que lhe chamem.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Imagem de 2016 sobre as filas no atendimento para obter o passe do Metro, esta tarde na estação do Campo Grande em Lisboa. 
( Pedro Rocha / Global Imagens )

Passe Família já pode ser pedido. Mas prepare-se para a burocracia

Imagem de 2016 sobre as filas no atendimento para obter o passe do Metro, esta tarde na estação do Campo Grande em Lisboa. 
( Pedro Rocha / Global Imagens )

Passe Família já pode ser pedido. Mas prepare-se para a burocracia

Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa.

Programa Regressar arranca. Governo dá incentivo até 6500 euros a emigrantes

Outros conteúdos GMG
Opinião. A última sexta-feira negra