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Opinião: Além de Maluf

Foto: REUTERS/Paulo Whitaker
Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

Ainda não se ouvia falar em Mensalão ou em Lava-Jato e já o nome de Paulo Maluf era considerado sinónimo de corrupção.

Ainda não se ouvia falar em Mensalão ou em Lava-Jato, as duas operações jurídico-policiais que levantaram o tapete da sujidade praticada ao mais alto nível na política e na alta finança brasileiras, e já o nome de Paulo Maluf era considerado sinónimo de corrupção.

Acusado ao longo dos anos 80, 90 e início do século XX de sonegação fiscal, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, peculato, formação de quadrilha, intimidação de testemunhas e improbidade administrativa, era certo que a cada novo escândalo na imprensa o antigo governador do estado de São Paulo, prefeito da cidade de São Paulo, candidato derrotado à presidência do Brasil e deputado de 1983 até aos dias de hoje figuraria entre os principais beneficiários.

A sua fama correu mundo: em 2010, a pedido da justiça dos EUA, teve nome e fotografia estampados na difusão vemelha da Interpol, correndo o risco de ser detido em 181 países. Em 2012, o Banco Mundial incluiu-o numa lista de 150 corruptos internacionais. E em 2014 a ONG suiça Transparência Internacional deu-o como exemplo de corrupto a ser combatido, alcunhando-o de Senhor Suborno.

Por essas e por outras, mesmo sem o proveito, é acusado de ter produzido a célebre frase “eu roubo mas faço”, na verdade da autoria de Adhemar de Barros, um político umas décadas mais antigo.

Na Lava-Jato, a divulgação nos últimos dias dos perto de 300 depoimentos de 77 delatores da construtora Odebrecht, empresa que há 30 anos vinha pagando as campanhas eleitorais e outros luxos de governantes em troca de favores na distribuição de obras, atingiu Brasília como um míssil. São oito ministros do Governo Temer atingidos. O próprio Michel Temer é citado. E os seus antecessores vivos, Dilma Rousseff, Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Collor de Mello e José Sarney, idem. Há 11 governadores estaduais nas delações, fora prefeitos e vereadores de pequenas e grandes cidades. Quase um terço dos ilustres membros dos Senado Federal foram implicados. Dezenas de deputados federais também.

Nem o sistema judicial escapou, com membros de tribunais de contas comprados pela empresa. A polícias, a Odebrecht pagou para deixarem passar em claro irregularidades nos canteiros de obras. A sindicalistas, para evitarem greves de trabalhadores em empreendimentos da construtora.

E até Antenor Karitário, chefe da tribo índia dos karitianos no estado da Rondônia, ganhou o seu quinhão com o compromisso de asfixiar eventuais protestos ambientalistas dos índigenas. “Pagava-lhe cinco mil reais [cerca de 1500 euros] por mês, depositava na conta da esposa e cheguei a receber em troca um cocar [o cadorno que os chefes índios usam na cabeça] que ainda está lá em casa”, contou Henrique Valadares, ex-quadro da Odebrecht.

Ou seja, nem a velha expressão brasileira usada em momentos de depressão generalizada como este – “fechem tudo e devolvam o país aos índios” – se pode aplicar mais.

Mas a maior novidade da lista da Odebrecht não é que até os índios participem do esquema de corrupção de Odebrecht; é que no meio das centenas de corruptos desta vez não tenha aparecido o nome de Paulo Maluf.

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