Opinião

Opinião. “Aprender, desaprender e reaprender”

(Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens)
(Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens)

A lógica de aprender, trabalhar e reforma já não faz sentido, agora temos de trabalhar, aprender e divertirmo-nos em paralelo

Passados 20 anos desde a Expo98, Portugal parece finalmente próximo da promessa de um país inovador e sofisticado. Não apenas fruto da forte aposta na atração de investimento e de centros de competências, de outsourcing e nearshoring internacionais, mas também pelo esforço de transformação e requalificação da sua indústria e do seu tecido empresarial, com vista a posicionar-se no pelotão da frente no que toca à indústria 4.0 e à transformação digital.

No entanto, não deixa de ser algo irónico que num momento em que Portugal está a estabilizar e se consolidar como um hub tecnológico e de startups global, um dos principais e mais emblemáticos projetos industriais esteja em risco de deslocalização, falo da Autoeuropa.

É importante relembrar que até 2030, devido à automação e IA, cerca de 375 milhões de pessoas vão ter de mudar de trabalho e ter de aprender novas competências. Entender que os millennials mudam de trabalho de dois em dois anos (ou menos), e que vamos ter mais 300 milhões de pessoas com mais de 65 em 2030 do que tínhamos em 2014.

Por outro lado, dar alguma atenção aos sinais de estagnação e até redução de produtividade em alguns países, muito devido à distração das tecnologias e a desenhos organizacionais obsoletos. Cerca de 92% dos executivos sentem que o seu modelo organizacional não funciona, e apenas 14% sente que tem uma solução.

Neste contexto, um dos fatores mais estratégicos e transversais para manter a competitividade é uma aposta num modelo de trabalho mais flexível, mais assente na criatividade, empreendedorismo e colaboração. No futuro, a capacidade de colaboração entre seres humanos e entre seres humanos e máquinas vai ser cada vez mais crucial.

Cada vez é mais difícil definir títulos e funções nas empresas, pois o mais importante é a capacidade de resolver problemas e atingir resultados, e boa capacidade de adaptação e comunicação. Leis laborais rígidas numa era de automação só torna maior a motivação para automatizar e deslocalizar.
Da mesma forma que para um investidor o mais importante não é que um empreendedor trabalhe muito, mas que seja capaz de ter bons resultados. Para as empresas e para o Estado, não deve ser o trabalho, mas sim os resultados que devem ser a principal motivação e preocupação.

E se no empreendedorismo o facto de se deter uma participação no capital é importante para a sua motivação, modelos em que os trabalhadores também possam ser detentores de capital, podem contribuir para a sua produtividade e motivação, como já defendia Peter Druker em 1993, no seu livro A Sociedade Pós-Capitalista.

Assim, numa sociedade com boas bases educacionais e societárias, ideias como a do salário mínimo garantido, de Rutger Bregman, podem não ser descabidas e contribuir para fomentar um espírito de maior iniciativa e mobilizar a capacidade criativa coletiva para resolver os desafios da nossa sociedade.
Para além de uma reforma radical do sistema de educação, é crítico uma reforma do conceito de trabalho, e também uma alteração no paradigma da noção de valor do trabalho. A lógica de aprender, trabalhar e reforma já não faz sentido, agora temos de trabalhar, aprender e divertirmo-nos em paralelo.

Já dizia Alvin Toffler, em 1970, “que os iletrados do século XXI não vão ser quem não sabe ler ou escrever, mas aqueles que não souberem aprender, desaprender e reaprender”.

Cofundador e CEO da Beta-I

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