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Opinião. Cinquenta e cinco dólares

Fotografia: Direitos Reservados
Fotografia: Direitos Reservados

Há décadas que nos habituámos a equivaler petróleo com riqueza. Este tempo acabou.

Há décadas que nos habituámos a equivaler petróleo com riqueza. Países africanos onde se vivia miseravelmente descobriam petróleo e de repente as suas elites aterravam em Lisboa com milhões para gastar ou investir. No Médio Oriente, a população local trabalhava poucas horas e não ia para a escola, mas mesmo assim nada faltava. Na Venezuela, Hugo Chávez organizava festas onde se dava ares de grande líder comprando o bajulo de muitos pseudointelectuais no ocidente.

Este tempo acabou. O preço do barril de petróleo já há anos que não ultrapassa os 55 dólares. Este número não surge por acaso. Como já expliquei nesta coluna, os avanços tecnológicos nos EUA que permitiram a extração do petróleo do xisto, ou fracking, implicam que neste momento existem dezenas de empresas e regiões pelo mundo que concorrem de forma lucrativa se o preço exceder um certo valor. Esse valor estima-se hoje que seja no máximo uns $55. O petróleo tem de custar menos do que isto, porque senão ninguém o compra.

Cada poço de petróleo tem um custo de exploração diferente. Mas, de acordo com a empresa Fitch, hoje o custo em média para produzir um barril por região é o seguinte: Angola $82, Arábia Saudita $74, Rússia $72, Qatar $51, Koweit $45. Tendo em conta os enormes custos fixos que estes países têm para suportar uma elite luxuosa e manter o povo tranquilo com subsídios e empregos públicos, eles estão neste momento a gastar a ritmo acelerado as poupanças que tinham acumulado.

Em termos ambientais, esta revolução tem um lado positivo. A estes preços, queimar carvão para produzir eletricidade não faz qualquer sentido económico. O gás natural e o petróleo de xisto produzem muito menos dióxido de carbono do que o carvão. O planeta agradece, se bem que os mineiros sem emprego votem em massa nas promessas de Donald Trump. O lado negativo é que a exploração do petróleo de xisto liberta metano que provoca tanto ou mais efeito de estufa que o dióxido de carbono.

Mas, é em termos políticos que a diferença é mais marcante e o impacto é mais radical. A Venezuela está em colapso porque não tem mais dinheiro para encobrir e disfarçar a miséria e opressão que as aventuras comunistas sempre produzem. De Angola, ouvimos que as empresas portuguesas não conseguem receber, e que cresce a contestação ao regime de José Eduardo dos Santos. A Arábia Saudita ameaça invadir o Qatar, e muitas zonas no Médio Oriente radicalizam os seus jovens para fundamentalismos que disfarcem o fim das regalias. Na Rússia, Vladimir Putin persegue uma agenda cada vez mais nacionalista e de confronto internacional distraindo o povo da falta de dinheiro.

No passado, era frequente ouvir explicações sobre os mais díspares eventos históricos, desde a queda da União Soviética à guerra do Iraque, usando uma única variável: o mercado do petróleo. Sendo um exagero, isto continua a ser útil. Muito do que se ouve hoje nos noticiários sobre política internacional explica-se com um cifrão e um número: $55.

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