Opinião

Opinião. De marqueteiros a advogados

Presidente do Brasil, Foto: REUTERS/Adriano Machado
Presidente do Brasil, Foto: REUTERS/Adriano Machado

O esquema de corrupção destapado pela Operação Lava-Jato revelou, mais do que ganância financeira, a ambição de poder dos protagonistas políticos.

Com o advento da internet e da tecnologia, comparado em impacto apenas ao período da Revolução Industrial, todos os anos no Brasil e no mundo aparecem listas de profissões em alta e em baixa.

Um engenheiro especialista em energias renováveis terá mais futuro, dizem os especialistas, do que um engenheiro mecânico, dados os fechos e demissões recorrentes nas indústria automóvel e siderúrgica, por exemplo.

Com o quase desaparecimento dos jornais em papel e a demora em encontrar um modelo de negócio rentável online nas grandes empresas de comunicação, ser jornalista está em baixa. Mas um profissional da área pode voltar-se para a gestão de medias sociais, canal de contacto em alta hoje em dia entre produtores e consumidores.

Falemos, no entanto, do topo da pirâmide e das circunstâncias económicas, políticas e até policiais do Brasil de hoje. O esquema de corrupção destapado pela Operação Lava-Jato revelou, mais do que ganância financeira, a ambição de poder dos protagonistas políticos.

Grosso modo, os dois biliões (trilhões em português do Brasil) e qualquer coisa de euros desviados no esquema serviram sobretudo para irrigar campanhas eleitorais: mais do que para comprar apartamentos, mansões, automóveis, viagens, vinhos ou relógios, os políticos roubaram empresas públicas e trocaram favores com companhias privadas no intuito de se elegerem ou reelegerem e manterem o sem fim de privilégios que a política oferece.

Logo, a fatia de leão dessas verbas fabulosas entrou nos bolsos sem fundo dos cérebros das campanhas, os marqueteiros políticos, não por acaso uma das profissões mais exportadas do Brasil. Quando em fevereiro do ano passado, João Santana, o mais famoso de todos eles, foi preso, precipitando a queda de uma das suas clientes, a então presidente Dilma Rousseff, contaram-se parte dos seus luxos intermináveis – afinal, ele e os outros colegas eram o destino final dos desvios da Lava-Jato.

Santana, entretanto, foi condenado a oito anos e quatro meses de prisão por lavagem de dinheiro. E, dada a vigilância da imprensa e da opinião pública, o Congresso Nacional vai restringir as milionárias campanhas eleitorais à brasileira já nas eleições de 2018. Marqueteiro político passará, pois, a “profissão em baixa” já em 2018.

E qual ocupará o lugar? A infame conversa telefónica de Aécio Neves, senador, ex-governador de Minas Gerais, presidente afastado do PSDB e candidato presidencial derrotado em 2014, com Joesley Batista, multimilionário corrupto, divulgada em maio deste ano pela polícia, dá pistas interessantes.

Aécio, que como tantos outros protagonistas da política brasileira, andava na mira da Lava-Jato por ter recebido uns generosos milhões para irrigar as suas campanhas e, portanto, encher os bolsos dos seus marqueteiros, pede dinheiro a Joesley nessa conversa de maneira a conseguir pagar os milionários honorários do advogado que o salvaria da operação.

Ou seja, o esquema é o mesmo: um político pede dinheiro a um milionário que, em troca de manter boa relação com um poderoso decisor, aceita doar; o que muda é o destino final da verba, que antes era o bolso de uma estrela do marketing político e agora é o cofre de um astro da advocacia.

A derradeira prova foi a festa de aniversário do mais requisitado desses advogados (um João Santana do direito, portanto) na noite de 22 de setembro no Palácio de Xabregas e, no dia seguinte, num almoço numa vinícola de Torres Vedras. Perante 220 convidados, parte deles também advogados de políticos de primeiro escalão, Antônio Almeida Castro, conhecido como Kakay, deu as boas vindas aos amigos que cruzaram o Atlântico à sua conta com a frase “bem-vindos ao meu delírio”.

Na era da Lava-Jato, ser advogado de político é, pois, uma profissão com futuro.

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