Opinião

Opinião. Do QE ao QT

Jerome Powell, líder da Reserva Federal norte-americana. Fotografia: REUTERS/Joshua Roberts
Jerome Powell, líder da Reserva Federal norte-americana. Fotografia: REUTERS/Joshua Roberts

A opinião de Nuno Serafim, da IM Gestão de Ativos

Nas últimas duas semanas os mercados acionistas entraram num novo paradigma. Outrora num regime de taxas historicamente baixas, abundância de estímulos monetários, inflação abaixo da tendência e completa ausência de volatilidade, os investidores olham para um novo quadro macroeconómico ao qual os preços dos ativos terão que se ajustar.

Até sexta-feira, dia 9, os principais índices mundiais corrigiram cerca de 10% desde os máximos de janeiro e a volatilidade passou a ser uma constante das últimas sessões.
A razão?

São várias, mas podemos dizer que tudo começou com a divulgação dos dados do mercado de trabalho nos EUA que, como esperado, mostraram o excelente estado de saúde da economia norte-americana, com o desemprego em 4,1%, e os Average Hourly Earnings a crescerem 3,9% em termos homólogos, algo não visto desde 2009.

Em consequência, as taxas de juro de longo prazo subiram para um a máximo de 2,88%, perante a sugestão que a economia estará a ficar sobreaquecida. Uma economia sobreaquecida representa, claro, a retirada de alguns estímulos monetários e uma subida mais que anunciada das taxas de juro.

Se o Quantitative Easing (QE) foi uma medida necessária para resgatar as economias da deflação em sequência da crise financeira de 2008 e suas réplicas, o Quantitative Tightening (QT) será necessário para conter as expetativas de inflação decorrentes de uma economia em fase de expansão acelerada, de final de ciclo, à qual foi prescrita uma expansão fiscal pela administração Trump, ou seja, o mesmo que apagar fogo com gasolina.

Naturalmente, ainda é cedo para de forma definitiva dizer-se que a inflação vai ser um problema nos próximos meses. No entanto, sabemos como os mercados reagem de forma exagerada e tendem a ajustar-se rapidamente a cenários que podem ou não materializar-se.

Sabemos no entanto, que o consumo, no último trimestre de 2017, cresceu nos EUA a uma taxa anualizada de 3,8%, o valor mais elevado em 3 anos, tendo sido financiado apenas parcialmente por crescimento do rendimento disponível, sendo a outra fonte de financiamento a redução da poupança. Nos EUA, a contribuição do consumo para o produto é estimada em 69%. Ou seja, no último trimestre o consumo contribuiu com 2.6% para o crescimento do produto, precisamente o valor do crescimento total no último trimestre pois inventários e importações anularam a outra componente positiva que teve origem no investimento.

Sabemos também que a taxa de inflação é uma variável de final de ciclo e que com o desemprego em mínimos e consumo em máximos, a economia norte-americana terá que arranjar outras fontes de crescimento que, simplesmente, não existem.

Se o QE significou baixas taxas de juro, baixa volatilidade e preços de ativos em máximos históricos, o QT vai significar, por analogia, taxas de juro mais elevadas e um certo regresso ao padrão normal de volatilidade. Uma boa altura para os gestores de ativos mostrarem o seu valor, mas um grande desafio para perceber o novo ponto de equilíbrio de prémios de risco seguramente mais elevados.

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