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Opinião: G7 ou G6

EPA/NEIL HALL / POOL
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A opinião de Nuno Serafim, da IM Gestão de Ativos

A reunião do G7, este sábado, será definitivamente uma reunião diferente face ao consenso que normalmente marca estes eventos. Pelo menos são essas as expetativas em função do debate sobre tarifas entre Estados Unidos, de um lado, e o resto do Mundo, do outro.
O Presidente francês, já expressou a vontade de não haver uma declaração conjunta. As tarifas sobre as importações de aço e alumínio de 25 e 10%, respetivamente, entraram em vigor a 1 de junho afetando assim os países aliados dos EUA.

União Europeia, Canadá e México são os mais afetados – a Coreia do Sul, outro grande exportador realizou um acordo bilateral com os EUA -, o que não deixa de ser considerado estranho já que o argumento para a imposição de tarifas apresentado pelos EUA no âmbito da organização Mundial de Comércio foi o da Segurança Nacional. De que forma países reconhecidamente aliados podem representar uma ameaça nacional para os EUA? É um argumento no mínimo pouco credível.

No entanto, não será a falta de credibilidade que afastará Trump da rota do America First, tendo sido já ordenada a abertura de uma investigação pelo departamento de comércio sobre as importações de automóveis sujeitas ao mesmo argumento da segurança nacional. O setor automóvel é bastante mais importante para a economia europeia já que representa cerca de 65 mil milhões de dólares, ou seja, mais de 10 vezes que as exportações de aço e alumínio da União Europeia para os EUA.

Apesar do modelo negocial pouco convencional, Trump tem alguns argumentos do seu lado. As tarifas norte-americanas sobre as importações de automóveis são significativamente mais baixas que noutros países e blocos económicos. Enquanto os automóveis importados para a União Europeia são tarifados em média em cerca de 10%, nos EUA, esse valor não ultrapassa os 2,5%. Apenas o Japão, das grandes economias, tem tarifas mais baixas.

Outro argumento de peso que dá toda a vantagem aos EUA em negociações bilaterais é o tamanho da sua economia. Por exemplo, 84,5% das exportações do Canadá têm como destino os EUA e se a as exportações de veículos automóveis da União Europeia são relevantes, as do México para os EUA são em dobro, ou seja mais de 120 mil milhões!!?? Uma vida difícil para Justin Trudeau e Peña Nieto.

O fim do multilateralismo negocial é uma ameaça para a economia mundial. A estimativa do FMI sobre o impacto de uma tarifa de 10% no comércio dos EUA (exportações/importações) no Produto Global é de -0,5%, ou seja, aproximadamente 2,5% dos resultados das empresas, o que não sendo significativo levaria por via do impacto da inflação e do aumento dos prémios de risco a uma compressão dos múltiplos que seria facilmente na ordem dos 10%, ou seja uma correção de mais de 12,5% das ações globais.

A via das negociações bilaterais é um retrocesso no comércio e no desenvolvimento económico global. Obviamente que a Europa não pode ficar indiferente ao estilo de Trump e as retaliações serão uma realidade já a partir de 1 de julho. Isto obviamente se Trump não recuar outra vez. O problema da estratégia de Trump é que os acidentes podem acontecer e os resultados inesperados também.

Apesar de não ser um modelo perfeito, o multilateralismo levou a China, apesar de tudo, a reduzir o seu excedente comercial em 80% nos últimos 10 anos, à medida que transita para um modelo baseado no consumo, ao mesmo tempo que gastava mil milhões de dólares das suas reservas para valorizar a moeda. Veremos se segunda feira será dia de G7 ou G6.

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