Opinião

Opinião. Geddel para a posteridade

JAM

A foto do tesouro do político baiano espalhou-se por todos os recantos da internet como a ilustração definitiva da Lava-Jato para a posteridade.

Como ilustrar nos livros de história do futuro a Operação Lava-Jato?

Com uma foto de Lula da Silva? Injusto e parcial, dirá à esquerda.

A de Michel Temer? Também, responderão os três ou quatro defensores do atual presidente.

Os cleptomaníacos Sergio Cabral e Eduardo Cunha talvez merecessem a honra mas exerceram “apenas” as funções de governador do Rio de Janeiro e de presidente da Câmara dos Deputados, respetivamente.

Durante meses chegou a ser Newton Ishii a cara da Lava Jato: o agente da polícia federal de origem japonesa, por isso conhecido como “Japonês da Federal”, aparecia sempre a acompanhar o último algemado famoso na direção da cela. Mas como Ishii, o próprio, acabou condenado por um caso de contrabando na fronteira do Brasil com o Paraguai, não pode ser o rosto de uma ação anticorrupção.

Por isso, o melhor, numa operação policial com mais de cem detenções, perto de 1200 nomes da nata da política e da alta finança envolvidos e quantias incontáveis desviadas é não personalizar.

Como faz a TV Globo, que sempre que aborda a Lava-Jato usa uma arte com canos de esgoto enferrujados a jorrarem dinheiro, uma boa imagem de corrupção. Só que quando criou o grafismo, a Globo devia pensar que a operação seria limitada no tempo e no alcance – entretanto, passaram-se anos e já nenhum telespetador aguenta mais ver os canos enferrujados na abertura dos jornais.

Estávamos pois num impasse gráfico quando Geddel Vieira Lima decidiu resolver o dilema dos tais livros de história do futuro.

Amigo do círculo mais íntimo de Temer, Geddel já era acossado por casos de corrupção desde o início da sua infame trajetória política – o último dos quais levara-o a ser condenado na Lava-Jato por desvio de 20 milhões de reais [seis milhões de euros aproximadamente] e o penúltimo obrigara-o a demitir-se do atual governo por pressionar o ministro da Cultura a deixá-lo construir um imóvel numa zona tombada por razões arquitetónicas.

Mas na última semana ele superou-se. Por visitar muitas vezes um apartamento em nome de um amigo, a polícia recebeu uma denúncia anónima. Estaria Geddel a esconder documentos comprometedores no local? Ele dizia que não, que usava o imóvel para guardar pertences do pai, falecido no ano anterior. Até que a polícia resolveu fazer esta semana uma busca, devidamente autorizada por um juiz, e descobriu a maior quantidade de dinheiro vivo jamais apreendida na história do Brasil. Para contar os 51 milhões de reais – uns 13 milhões de euros – espalhados pelo chão dentro de malas, sacos e pacotes foram necessárias 14 horas de trabalho de funcionários da polícia devidamente ajudados por máquinas usadas nas casas de câmbio.

Habituado toda a vida a papéis secundários, desta vez Geddel superou Lula, Temer, Cabral, Cunha, Ishii, Youssef, Paulo Roberto, Delcídio e até os canos de esgoto da TV líder de audiência: a foto do tesouro do político baiano espalhou-se por todos os recantos da internet como a ilustração definitiva da Lava-Jato para a posteridade.

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