Opinião

Opinião. Igualdade ou cultura da desresponsabilização?

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Lutar para mudar situações que estão mal é crucial, mas não podemos confundir isso com usar a nossa voz para nos desculparmos

Na semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher multiplicam-se os artigos e referências a tudo aquilo que ainda temos por conquistar em matéria de igualdade – posições de chefia, salários, acesso a oportunidades.

Estes são problemas reais e cuja luta se acentua ainda mais nas gerações mais novas, os chamados millenials e geração Z (nascidos após e durante a década de 80). Esta é uma geração com acesso desmaterializado à informação – a geração dos youtubers, influencers e que vê parte da vida através da lente perfeccionista do Instagram. Estes meios vieram ampliar vozes que de outra forma não eram ouvidas e o facto de haver graves denúncias que recentemente ganharam voz através é louvável.
Infelizmente, em alguns casos, confundimos situações graves com situações menores em que nos desculpamos de responsabilidades individuais associando-nos a campanhas que “estão na moda” pelas piores razões.

Se não fiquei com um determinado trabalho, será apenas e só porque sou mulher, ou porque me faltam competências e posso melhorar a minha confiança? Se me discriminaram em determinada situação, devo atribuir isso a algo que poderia ter mudado ou à minha orientação sexual? Se não fui promovida e o cargo foi dado a um colega, este é um caso puro de discriminação? Depende. Situações deste género requerem análise, diálogo e reflexão.

Com todos os benefícios e direitos de nos expressarmos livremente, não estaremos nós, em certas situações, a criar uma cultura de desresponsabilização ao atribuirmos causas ao grupo com que nos identificamos, quando a responsabilidade é nossa?

Vejo a facilidade em misturar as duas coisas, até porque quando falamos de casos graves e de tremenda injustiça nenhum de nós fica indiferente. Lutar para mudar situações que estão fundamentalmente mal é crucial, mas não podemos confundir isso com usar a nossa voz, ou a voz do grupo a que pertencemos, para nos desculparmos. Porque quando o fazemos para proveito próprio estamos a descredibilizar os casos graves e reais.

E por ser tão fácil fazê-lo, é mais tentador surfar uma onda existente do que fazer perguntas e procurar esclarecer situações. É mais tentador interpretar acontecimentos à luz de uma tendência que é consensual do que parar para olhar à volta, para nós próprios e ter uma atitude de autorreflexão e autocrítica.

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