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Opinião: Intel outside

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O futuro da Intel está nos carros autónomos, na realidade virtual e noutras áreas emergentes que irão mudar a forma como se trabalha.

Na Primavera de 2006, o ar ainda gélido de São Francisco recebeu-nos para um Intel Developer Forum que ficaria para a história. Foi nesse evento anual de proporções gigantescas que a fabricante de processadores anunciou a sua nova arquitectura Intel Core.

Viviam-se tempos excitantes na indústria, com o surgimento de processadores dual-core e quad-core que captavam a imaginação dos programadores, empresas de software e fabricantes de computadores. As possibilidades que isto ia trazer! As coisas que se iam fazer no mercado!

O domínio esmagador da Intel, com cerca de 80% do mercado, tornava fácil a expansão dos seus esforços e obrigatória a viagem até São Francisco para os dois IDF anuais, o da Primavera e o do Outono. Belos tempos para a empresa, sediada ali ao lado em Santa Clara. É uma pena que não tenha durado tanto tempo quanto o esperado.

Dez meses depois, naquele mesmo Moscone Center, Steve Jobs apresentou o iPhone e desencadeou uma revolução móvel que afectou muito os planos da Intel. Preterida pelos fabricantes de smartphones, a empresa perdeu o comboio dos dispositivos móveis para a Qualcomm.

A sua relevância no mercado de portáteis, desktops e servidores mantém-se, mas a dinâmica alterou-se completamente. A venda de computadores afundou todos os trimestres nos últimos cinco anos, com uma pequena inversão nos primeiros três meses de 2017.

As empresas estão rapidamente a iniciar processos de migração para a nuvem híbrida, o que tem impacto na alocação de orçamentos para a aquisição de hardware. Os consumidores têm nos seus smartphones de grandes dimensões o principal dispositivo de computação diário. O mundo mudou, e a Intel ficou outside. É neste contexto que se percebe porque é que a fabricante decidiu acabar com o IDF de forma permanente, cancelando até a edição que estava prevista para Agosto próximo.

A empresa sabe que tem de olhar para outras áreas, encarando o mundo pós-PC. Não é que se anteveja o fim dos computadores em si, mas este mercado, tal como o dos smartphones, nunca mais vai crescer. A maturidade atingirá todos os segmentos; será uma comodidade a preços baixos. O futuro da Intel está nos carros autónomos, na realidade virtual e noutras áreas emergentes que irão mudar a forma como se trabalha dentro de algum tempo.

Seja como for, é o fim de uma era. Nos últimos anos, a Intel optou por uma abordagem menos tecnicista e mais macro na sua participação em grandes eventos da indústria – recordo-me do furor que o CEO Brian Krzanich fez quando pôs um enxame de drones a voar no CES 2015, em Las Vegas. Este ano, a empresa levou a audiência a uma viagem de paraquedismo em realidade virtual através dos seus óculos de realidade mista, Project Alloy.

É este o caminho para a fabricante, que em vez de organizar o seu próprio mega evento vai usar outras conferências para mostrar o que anda a fazer. Desta forma, também não terá de se preocupar com a competição de eventos rivais, como aconteceu em anos em que o IDF batia em cima de apresentações da Apple ou do TechCrunch Disrupt.

É a estratégia oposta em relação à Apple, que deixou de participar nos poucos eventos onde ainda se encontrava para viajar sozinha na sua própria onda. O tempo dirá se esta foi a decisão correcta para a Intel, até porque os enormes eventos tecnológicos dos nossos tempos estão a assumir proporções tão desmesuradas que derrotam os seus propósitos. CES, Mobile World Congress, Web Summit ou CeBIT tornaram-se tão grandes e tão confusos que é impossível separar o trigo do joio.

Um dia destes, vão parar de bater recordes de participação e voltar ao essencial. E é capaz de já não faltar muito.

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