Opinião

Opinião. O ciclo global

União Europeia está a recrutar

A Reserva Federal americana subiu a taxa de juro nos seus depósitos para 1,25%. O que é que isto implica para a Europa?

Esta semana, a Reserva Federal americana subiu a taxa de juro nos seus depósitos para 1,25%. É já um aumento de 1 ponto percentual nos últimos 18 meses. O que é que isto implica para a Europa? A resposta habitual num curso de economia seria que esta taxa de juro mais alta nos EUA levaria a cotação do euro a ganhar ligeiramente em valor nos próximos meses. Isso afeta ligeiramente o saldo das transações comerciais entre a zona euro e os EUA, e o BCE pode responder a este desenvolvimento na escolha das suas taxas de juro. Mas este efeito é muito pequeno, e suficientemente incerto em termos do horizonte temporal, que se pode aproximadamente dizer que nada muda na economia europeia.

Nas últimas décadas, no entanto, mais do que o crescimento no comércio internacional, houve um enorme aumento nos fluxos de capitais. Muitos bancos hoje operam a uma escala global. Os mercados de capitais rapidamente respondem a mudanças nas taxas de juro deslocando bilhões em investimentos de um lado para outro. Quando as taxas de juro sobem nos EUA, o aumento no custo de financiamento e nas restrições ao crédito dos bancos americanos levam à redução do crédito. Mas os bancos americanos hoje são bancos globais, e o mesmo com os bancos europeus. Logo, esta contração da política monetária americana leva a uma contração do crédito e das condições financeiras na Europa também.

Como é que o BCE e as taxas de juro europeias podem reagir? Por um lado, o BCE tem anunciado que não tenciona subir as taxas de juro em breve. Para além disso, se a contração americana contrair a atividade económica na Europa, então isto contribui para adiar esta subida. Por outro lado, a economia europeia está a começar a crescer a um ritmo assinalável pelo que as condições deste lado do Atlântico se começam a assemelhar às condições nos EUA. Tendo em conta que os bancos centrais tendem a pensar de forma semelhante, a decisão da Fed levaria a prever que o BCE talvez esteja também mais próximo de começar a subir as suas taxas de juro. O ciclo financeiro global torna mais difícil prever o comportamento dos bancos centrais, porque deixamos de olhar apenas para as condições da zona euro, para termos de ter em conta as suas interações com outras zonas.

Mario Draghi, Carlos Costa, e os restantes governadores do Eurosistema vão ter um ano difícil. Nos últimos anos, a política monetária apontou sempre na mesma direção. A agilidade do BCE mediu-se na sua capacidade de encontrar novos instrumentos que apoiassem esta direção de política expansionista. Mas, no próximo ano ou dois, o BCE vai ter de lidar com uma inflação baixa mas uma economia em crescimento, gerir um programa de compras de dívida pública que tem efeitos grandes em poucos países, e um contexto internacional com sinais contraditórios. Tendo em conta a dependência com que a nossa economia endividada vive em relação às taxas de juro, Portugal vai ser das principais vítimas ou beneficiários das decisões da política monetária.

Professor de economia na London School of Economics

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
(Diana Quintela/ Global Imagens)

Ministra da Administração Interna pede demissão. Costa vai a Belém

Fresh

Governo prepara linha de apoio para agricultores afetados pelos fogos

costa

Costa: “se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas”

Outros conteúdos GMG
Conteúdo Patrocinado
Opinião. O ciclo global