Opinião

Opinião. Ufa!…a Holanda já passou. Da globalização ao populismo

Fotografia: D.R.
Fotografia: D.R.

Não podemos deixar de nos interrogar sobre o impacto destas ondas populistas. Estaremos perante uma viragem definitiva e histórica da política?

Os resultados das votações sobre o brexit e para a presidência dos Estados Unidos criaram uma enorme ansiedade para cada ato eleitoral nas democracias ocidentais. Este fim de semana respirámos de alívio na Holanda, mas avizinha-se a França. Não podemos deixar de nos interrogar sobre o impacto destas ondas populistas. Estaremos perante uma viragem definitiva e histórica da política? Ou será este apenas um fenómeno passageiro, que se escreverá numa nota de pé-de-página nos livros de História? E se for uma viragem histórica, o que podemos esperar? O que podemos fazer?

Para além de eventos recentes como o terrorismo ou os movimentos migratórios, o crescimento do populismo tem parte do seu sustento na polarização económica e social que caracteriza os países de-senvolvidos desde o final da década de 1980. Até então, no período do pós-guerra, altas taxas de crescimento, a explosão do acesso à educação, a intervenção do Estado social e uma concorrência estável garantiram o crescimento de uma classe média forte, que assegurava a coesão das sociedades ocidentais.

A partir dos anos 1980, a globalização e a revolução digital criaram uma avalanche de mudanças socioeconómicas. Por um lado, possibilitaram uma enorme diminuição da pobreza no mundo, ao permitirem em países como a China ou a Índia um milagroso crescimento económico. Depois de muitos anos e muitos milhões de euros de ajuda ao desenvolvimento, a expansão do comércio mundial mostrou-se um meio muito mais eficaz de combater a pobreza. No mundo ocidental, estes fenómenos possibilitaram enormes avanços científicos e tecnológicos e ganhos de comércio que permitiram o crescimento económico forte do período 1990-2007 e aumentaram a qualidade de vida. Neste contexto, eles trouxeram uma melhoria de bem-estar para a humanidade.

Por outro lado, a globalização, ao abrir a economia mundial ao Leste europeu, à América Latina e à Ásia, afetou os mercados de trabalho nos países desenvolvidos. Vários estudos realizados nos EUA e na Europa demonstram a concentração de rendimento e riqueza e o crescimento dos diferenciais salariais nessas sociedades desde os anos 80. Em 2005, publiquei alguns estudos sugerindo que a volatilidade criada pela globalização aumentaria a insegurança laboral e reduziria salários para os trabalhadores menos qualificados e menos adaptáveis. Outros investigadores focaram o impacto das importações da China, da Índia ou da Europa de Leste, produzidas pela abundância de trabalhadores pouco qualificados nesses países.

Mais, a digitalização e a inovação tecnológica, que tiveram um desenvolvimento excecional também a partir dos anos 1980, geraram efeitos socioeconómicos semelhantes à globalização – trabalhadores menos qualificados são substituídos por tecnologias que geram empregos e elevam salários para os mais qualificados, mais flexíveis e mais inovadores. Em conjunto, globalização e digitalização contribuíram para um aumento das desigualdades, para a estagnação do rendimento das classes médias e para o enfraquecimento da coesão que caracterizou as nossas economias até aos anos 1980.

Depois de um período de camuflagem destes fenómenos pelas bolhas financeiras de 1990 a 2007, a recessão da última década fez crescer a fratura social, tornando-a visível, e ofuscou os impactos positivos no crescimento de longo prazo e na ciência, com evidentes implicações políticas. Os deserdados da globalização e da digitalização estão hoje conscientes de que são uma classe numerosa e usarão a política e o voto para manifestar as suas preocupações. Um estudo recente de David Autor, do MIT, demonstra que os “condados” americanos onde os republicanos ganharam mais votos foram aqueles onde foi maior o efeito das importações chinesas no mercado de trabalho. Como a História nos ensina, este tipo de movimentos leva frequentemente a propostas de soluções que nem sempre resolvem os problemas e, pelo contrário, muitas vezes os agravam.

O protecionismo é um exemplo disso mesmo. Por ser contra os estrangeiros e os seus produtos, esta é a plataforma político–económica de eleição dos movimentos populistas. O presidente Trump tem feito várias propostas para aumentar o protecionismo na economia americana, nomeadamente com um sistema fiscal penalizador das importações. O argumento á fácil de vender: se os americanos com menores qualificações perdem os seus empregos pelas importações a preços baixos da China, uma tarifa aduaneira, ou uma medida equivalente, poderão facilmente resolver este problema.
No entanto, a História demonstra os riscos de tais medidas, melhor do que qualquer argumento teórico.

Em 1930, no auge da Grande Depressão, os senadores Smoot e Hawley decidiram aumentar as tarifas aduaneiras nos EUA para proteger os empregos americanos. Os efeitos positivos no emprego foram de curta duração, pois os parceiros comerciais dos EUA rapidamente reagiram, retaliando com os seus próprios aumentos de tarifas. A guerra tarifária que se seguiu destruiu o sistema de comércio mundial e prolongou a depressão nos EUA por vários anos. No século XXI, a grande incógnita é como reagirá a China, que até agora tem guardado silêncio, a um movimento protecionista americano? Uma guerra comercial mundial que possa seguir-se deitará por terra a expectativa de uma recuperação na Europa.

Por outro lado, se o motivo mais relevante da desigualdade fosse a inovação tecnológica e digital e não a globalização, como sugere a maior parte dos estudos, o protecionismo não seria de todo uma solução para o problema e geraria ainda mais efeitos negativos. A questão tecnológica é menos passível de aproveitamento populista, pois a lógica nacionalista não tem nela eco e a aversão à tecnologia tem menos apelo nas sociedades modernas, sendo sinónimo de estagnação.
Se o protecionismo não é solução, o que fazer? Como recuperar a coesão social sem pôr em risco o crescimento do comércio global e a riqueza por ele gerada? Apoiar os mais desfavorecidos, compensando parte da suas perdas, desenvolvendo a sua adaptabilidade aos novos setores exportadores e melhorando os níveis educacionais, é essencial para restabelecer a coesão social. Este é um desafio para a sociedade civil, como um todo, e para o Estado. Por um lado, o número crescente de empreendedores sociais terão um papel importante, trazendo soluções inovadoras, eficientes e eficazes.

Por outro lado, o Estado social continuará a ser o ator fundamental. Países com maiores níveis educacionais, com sociedades mais flexíveis e igualitárias e com Estados mais eficazes, sobretudo no Norte da Europa, têm superado melhor e com mais coesão os desafios da globalização e da digitalização, apesar de, recentemente, o crescimento de imigração ter criado um novo foco de polarização. Infelizmente, em muitos países, o Estado tem-se mostrado incapaz de assegurar a coesão socioeconómica. Transformou-se num Estado que desperdiça e é pouco eficiente, capturado por certos grupos de interesse e sindicatos e com pouca capacidade de inovar.

Se num enquadramento sociopolítico normal estas deficiências seriam problemáticas por dificultarem o crescimento económico, no ambiente de implosão sociopolítica em que vivemos, a incapacidade do Estado de funcionar como agente de coesão eficaz e eficiente poderá representar o fim da sociedade como a conhecemos. Apesar de constituir um desafio politicamente arriscado para qualquer governo, o risco de não reformar o Estado para desempenhar melhor este papel, em colaboração com o resto da sociedade, pode conduzir-nos a uma situação histórica que não queremos repetir e ao ressurgimento de regimes que há muito julgávamos ultrapassados.

Economista

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