Opinião: João Almeida Moreira

Um deserto para o camelo

Senador Magno Malta Fotografia: REUTERS/Ricardo Moraes
Senador Magno Malta Fotografia: REUTERS/Ricardo Moraes

Não tivesse a comunidade internacional sido já apresentada aos deputados brasileiros naquela longa noite do impeachment de Dilma Rousseff, em que se votou a queda da presidente eleita “pela misericórdia de Deus”, “pela família quadrangular evangélica”, “contra o partido das trevas”, “pela paz em Jerusalém”, “pelas mãos calejadas dos fumicultores e pela indústria fumageira”, “pelo grupão de amigos de Uberlândia”, “por você, mamãe”, e aquela oração transmitida via satélite logo após a vitória de Jair Bolsonaro teria chocado o mundo mais ainda.

E quem foi o autor da oração, que mereceu olhos fechados, mãos dadas e ar compenetrado do novo presidente e uns améns intervalados da primeira-dama Michelle Bolsonaro?

Além de pastor, de senador, de vocalista da banda gospel Tempero de Amor, de marido de Lauriete, cantora cristã de sucesso desde “O Segredo é Louvar”, álbum de 2001, de cinturão preto de jiu jitsu e de amigo e fã do ator de ação Steven Seagal, diz-se que Magno Malta – eis o nome dele – é o bolsonarismo personificado.

E é um camelo, afirma por sua vez o General Hamilton Mourão, o vice-presidente eleito. Lembra o general que Malta era a primeira escolha de Bolsonaro para o lugar que ele acabaria por ocupar – “o meu ‘vice’ dos sonhos’”, suspirava o hoje presidente nos jornais. “Mas ele recusou”, prossegue Mourão, “porque quis se reeleger senador pelo Espírito Santo, como perdeu, agora quer ser ministro, ele é o elefante na sala, ele é o camelo para quem tem de se achar um deserto”.

Malta, que como Bolsonaro tem um longo histórico de ataques verbais à comunidade LGBT, perdeu, de facto, a vaga no Senado que achava ter no papo, para um tal de Fabiano Contarato, casado, imagine-se, com um homem, e, imagine-se novamente, pai adotivo de um rapaz.

Mas o pastor, que não se deixa abater por ironias do destino, no dia 8 de Outubro, 24 horas após a derrota, já estava na casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca, dividido entre orações e pedidos de emprego no novo executivo.

Como o novo presidente, o vocalista do Tempero de Amor é anti-aborto, pró-armamento, radical no tratamento a criminosos e acredita “num país que volte a cantar o hino e que não ‘glamourize’ os vagabundos”.

Malta, entretanto, gastou enquanto senador quase meio milhão de reais [uns 100 mil euros] em gasolina, paga pelo contribuinte – o equivalente a percorrer 2823 vezes o Espírito Santo. Sucede que encheu o depósito em apenas dois postos, distantes cinco quilômetros entre si, da propriedade do amigo e ex-deputado estadual José Andrade, afastado da vida pública desde 2013 por ter sido condenado por roubo de dinheiro público.

O cinturão preto de jiu-jitsu, que apoiou Lula, que apoiou Dilma, que apoiou Temer e que agora apoia Bolsonaro, é acusado, por outro lado, de tortura por um motorista de autocarro que denunciou por ser pedófilo. Declarado inocente do crime, o motorista, que ficou quase cego em consequência das torturas, recebe indemnização do estado equivalente a 400 euros desde então.

Num escândalo de desvio de dinheiro público para a compra de ambulâncias, em 2007, a empresa que beneficiou do esquema afirmou ter oferecido, como suborno, um automóvel a Malta; em 2009, o amigo de Steven Seagal foi ainda um dos envolvidos no escândalo dos “atos secretos”, como ficaram conhecidas as medidas impopulares, como assistência médica vitalícia às famílias dos parlamentares, aprovadas pelos deputados sem publicação oficial.

Caso o presidente ofereça um deserto ao camelo, isto é, premeie Malta com um cargo no governo – consta que lhe vai destinar o inédito e feito à medida “Ministério da Família” – o pastor vai sentar-se a partir de Janeiro, a cada Conselho de Ministros, ao lado do “campeão da moralidade” Sergio Moro.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May. REUTERS/Toby Melville

Brexit arrisca tirar 5% às bolsas. Libra com maior queda do ano

ANDRÉ AREIAS/LUSA

Autoeuropa envia centenas de carros para Leixões e Espanha para escoar produção

Lisboa. Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens

Hóspedes crescem até setembro mas dormidas em queda

Outros conteúdos GMG
Um deserto para o camelo