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Opinião. Zero a zero

Lula da Silva, ex-presidente do Brasil

“Combate do Século”, “Hora da Verdade”, lia-se nas manchetes dos jornais nos quiosques em redor. As televisões e as rádios ultimavam diretos.

Por razões de segurança, o duelo foi adiado uma semana: a polícia precisava de mais tempo para montar um esquema nunca antes visto na cidade. Esse adiamento, levou ao adiamento, por sua vez, do jogo de futebol entre Paraná Clube e Atlético Mineiro marcado para aquela noite, de maneira a concentrar todo o contingente policial no evento.

O local foi envolvido, num raio de 150 metros, por um cordão policial, a que só podiam aceder jornalistas credenciados ou moradores. Os reforços – polícia de choque e batalhão do exército – chegaram de manhã para prevenir encontros entre as duas claques, separadas por convenientes três quilómetros de distância.

De um lado, caravanas de autocarros e automóveis de pontos distantes do Brasil. Organizações populares, movimentos sociais e sindicatos nacionais montaram palcos, palanques e acampamentos. Foram divulgados “manuais de guerra” com instruções para evitar desacatos ou saber proceder adequadamente no caso de se verificar algum.

Do outro, deslocaram-se centenas de motards, com adereços variados, de bandeiras a camisas, de cartazes nas mãos a outdoors pagos nas ruas, de palavras de ordem ensaiadas a bonecos insufláveis.

Membros de um lado e do outro deram entrevistas a explicar que pretendiam evitar a violência mas que estariam preparados para ela, em casos extremos.

“Combate do Século”, “Hora da Verdade”, lia-se nas manchetes dos jornais nos quiosques em redor. As televisões e as rádios ultimavam diretos.

O caso não era para menos: afinal o juiz Sergio Moro, coordenador da Lava Jato, a operação policial que abalou o país ao envolver a elite dos empresários e dos políticos brasileiros ia receber no seu gabinete no Tribunal de Justiça do Paraná, em Curitiba, o mais popular e influente de todos esses políticos, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil de 2003 a 2010.

Um acha, sinceramente, que pode contribuir para a limpeza ética do Brasil, doa a quem doer. O outro está honestamente convencido de que é alvo de uma vendetta das elites por ter sido o primeiro presidente operário da história do país, o que mais se preocupou com justiça social e o que saiu do cargo com maior aprovação.

E durante cinco horas a batalha de perguntas e respostas sobre a propriedade ou não, por parte de Lula, de um apartamento tríplex num balneário paulista pago com dinheiro sujo do escândalo do Petrolão, paralisou o país.

As expetativas aguçaram a curiosidade pelas imagens divulgadas no sistema de vídeo do tribunal após o fim da audiência. No entanto, o que se viu? Moro a fazer questão de dizer que nada o movia contra o interrogado e a tratá-lo, sem jamais subir o tom de voz, como “senhor ex-presidente”; e Lula a responder com simpáticos “caro doutor” e a sublinhar que sempre teve a certeza de que seria muito bem tratado no interrogatório.

De substantivo, momentos um bocadinho abaixo da média de um e de outro, como quando Lula se envolveu numa ou noutra contradição ou como quando Moro teve de se vergar à verve aguçada e bem humorada do seu interlocutor.

No final, mais ou menos o mesmo que acontece após um debate político: só as claques acharam que o seu preferido foi demolidor. Para os moderados, foi um 0-0, com raríssimas oportunidades de golo. E pensar que foi por causa disto que adiaram o Paraná Clube-Atlético Mineiro.

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