Opinião

Os anti-influenciadores: sê quem tu és

Instagram influenciadores Bali

A autenticidade é uma mensagem poderosa, mas nem sempre significa aquilo que parece nas redes sociais

Avançamos pela vida ajustando constantemente a opinião que temos de nós mesmos, uma ideia que flutua por comparação com quem está à nossa volta. É nesse comprimento de onda que funcionam os influenciadores. Dão à geração Instagram uma visão daquilo a que podem aspirar e, em simultâneo, a consciência daquilo que não são e do que não têm. Ver a vida aparentemente fabulosa de gente que respira Gucci e passa o dia entre palmeiras pode ter um efeito inspirador e dar aos seguidores algo com que sonhar. Mas também tem potencial para espoletar um episódio depressivo, ao acentuar com filtros poderosos um estilo de vida inalcançável.

É frequente ver partilhadas no Instagram, e noutras redes sociais que dão primazia à imagem, frases inspiradoras sobre sermos fiéis a nós próprios – ao mesmo tempo que incentivam à mudança e ao melhoramento pessoal. A campanha da Sumol para este Verão toca nalguns destes temas, com a intenção de “celebrar a autenticidade” e mostrar uma espécie de anti-influenciadores, no sentido de pessoas com estilos e imagens diversas que não necessariamente se encaixam no perfil de perfeição a la Instagram.

“Vivemos numa altura em que os jovens vivem atrás de um ecrã com uma pressão de só expor ‘o perfeito’, a marca quer que percebam que ‘o perfeito’ é o que há de mais autêntico e genuíno em cada um, e não há vergonha nenhuma nisso”, explicou-me Filipe Guerreiro, diretor de Marketing Sumol+Compal para Portugal e Espanha. “É tão autêntico utilizar 20 filtros como não usar maquilhagem, desde que seja uma forma de estar fiel à sua essência.” O responsável fala de “co-criadores”, não de influenciadores, e cita o exemplo de Carolina “que é vegana e não tem vergonha.” (Disclaimer: eu sou vegan e não tenho vergonha disso. Pelo contrário. A bem da verdade, nunca conheci um vegan que tivesse vergonha de o ser. Mas adiante).

O conceito da campanha da Sumol é inteligente e apela a uma procura de autenticidade que tem crescido. Há um certo cansaço com a curadoria de imagem que se faz passar por autêntica e com a pressão para uma felicidade e positivismo suspeitos. Há uma valorização daquilo que é percebido como “real”, uma celebração das imperfeições, uma rejeição do Photoshop. “Sê quem tu és” é uma mensagem poderosa, principalmente quando existe um ressurgimento de ideologias repressivas e normativas. Os anti-influenciadores, no sentido de pessoas que quebram o molde e se afirmam de maneiras diferentes.

Mas ser fiel a nós mesmos não é assim tão interessante quando o nosso âmago é uma lesma calona estendida ao sol. Não há outra conclusão a tirar das reacções à mais recente iniciativa de um casal de influenciadores, Catalin Onc e Elena Engelhardt, que gerem a conta Another Beautiful Day no Instagram. Na semana passada, pediram aos quase 35 mil seguidores ajuda para financiar uma viagem de bicicleta entre a Alemanha, onde vivem, e África, através da plataforma GoFundMe. Pedem 10 mil euros para mostrarem aos seguidores “a beleza deste planeta e dos habitantes, mas também a sua fealdade.”

Essa é a sua essência como influenciadores: viajam para várias partes do mundo e documentam as aventuras, ela uma mulher linda, ele um homem todo tatuado que faz lembrar o “zombie boy”. O peditório causou ultraje em muita gente, que os mandou ir trabalhar para pagarem as suas contas, e a resposta deles foi elucidativa. Catalin disse que a sua mãe tem dois empregos para os sustentar e que, para eles, arranjar emprego não é uma opção. Não querem promover o consumismo trabalhando como modelos e, segundo ele explicou, ter uma mulher linda, ser tatuado e ter milhares de seguidores abre muitas portas.

Há alguma coisa mais autêntica que isto? Está ali, para qualquer um ler, em toda a sua gloriosa verdade. Não querem trabalhar e pedem que as pessoas os financiem, abertamente, sem mascararem as intenções com rococós místicos. São fieis a si próprios, o que não é assim tão interessante neste caso.

Queremos mesmo autenticidade, como defende a campanha da Sumol? Tenho para mim que o que queremos parece ser mais justiça e meritocracia. Admirar o sucesso dos outros quando o percebemos como adequado eleva toda a gente, inspira-nos e permite acreditar que o trabalho é recompensado. Que não basta ter um palmo de cara e um filtro para andar a pedir que nos paguem as contas. Se é certo que muitos acharão injusto o sucesso de quem está no topo seja qual for o seu percurso, creio que a sede que os utilizadores de redes sociais têm neste momento é de algo que os empurre para a frente e não para baixo. A campanha da Sumol, em muitos aspectos, também faz isso. Ser autêntico é melhor que ser farsante, mas o fascínio da comparação está na possibilidade.

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