Opinião

Os artistas são como elefantes, incomodam

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As pessoas têm medo dos criadores, sejam eles poetas ou artistas plásticos, atores ou escritores – e, provavelmente, terão razão.

Se refletirmos sobre este nosso tempo e os seus objetivos enquanto humanidade, decerto que este desígnio surge difuso, confuso e nada evidente. O projeto da nossa época parece ser o da produção de consumidores. Seja na escola, na política, na defesa nacional ou europeia, na agricultura e por aí fora.

Todos estamos bastante afundados em desesperos existenciais que a publicidade — seja política ou económica — nos alavanca e faz mover em círculos de aflição diários. Um facto curioso é que há cada vez mais homens e mulheres que dedicam o melhor de si para estudar formas de alienar os seus pares. São pagos para nos colocar num estado de cultura inferior e de sucessiva dependência das questões materiais. Estamos mais incapazes e enfraquecidos por uma cultura inferior, onde nem sequer nos apercebemos destes fatores que nos empurram a vida. Vivemos numa distração forçada que nos afasta do centro do qual a vida individual enquanto criação permanente deve ser conduzida.

Li, recentemente, num muito bem-intencionado documento estratégico e manifesto para o PNA — Plano Nacional das Artes que a cultura “(…) pode ser compreendida como formação da atenção, [e] permite alargar a nossa experiência humana e reconfigurar o horizonte de possibilidades em que nos movemos”. O que é formar essa atenção e sobre que matérias deve ela incidir? Um pouco mais à frente, lê-se, nesse manifesto que “A Arte é uma linguagem universal, que transmite significados impossíveis a qualquer outro tipo de linguagem, seja esta linguagem semântica, dialógica ou científica. Assim, educar para a cidadania, para a transformação social, para o bem-estar coletivo, é impossível se a educação não abarcar a dimensão artística e patrimonial.”

O que denota um paradoxo é que a atual formatação de indivíduos para serem consumidores se proponha agora a recuperar essa outra qualidade de criadores. Pressinto que estas duas características do nosso ser sejam inconciliáveis. Ou seja, é do domínio do impossível realizar-se uma educação que queira abarcar a dimensão artística sem a modificar profundamente nas suas bases. Que educação é essa que nos pode conduzir em direção a uma outra cultura superior?

Há um meio de aprender e praticar esta forma de cultura superior através da arte? Há em nós portugueses esse desígnio antigo que está plasmado no dito de que existe um poeta em cada um de nós? Recordo com frequência “El sistema” — idealizado e criado na Venezuela por José Antonio Abreu —, esse modelo real e utópico de ensinar música de forma livre para crianças e jovens de todas as camadas sociais. Começou informal, em garagens, estendeu-se difuso e capilarmente aos locais onde vivem os mais desfavorecidos. Procurou preencher o vazio que assola cada um de nós perante o estranho assustador e paralisante de possibilidades para a vida que é o mundo que nos rodeia. E agora, perante isto, o que fazer? O que propomos nós enquanto sociedade fazer? É preciso coragem de investir no indivíduo como criador. É preciso coragem para abrir o mundo e ler o poema.

As pessoas têm medo dos criadores, sejam eles poetas ou artistas plásticos, atores ou escritores – e, provavelmente, terão razão. Porque um artista verdadeiro ou um poeta incomoda muita gente. Como os elefantes. Mas nem sempre é assim, pois um elefante incomoda muito mais gente se estiver no jardim zoológico ou no circo, onde é motivo de riso ou piedade pela sua condição de aprisionado. Mas se o elefante estiver no seu meio natural, decerto que nos infunde receio e espanto pela diversidade e qualidade criativa do que a natureza soube realizar.

Pode ser aterrador a abrir novos espaços no desconhecido, que em nós habita lado a lado com o pouco que conhecemos. De nós e do mundo em que vivemos. Confesso, que quando encontro um livro de poesia, experimento um sentimento de medo. Muitas vezes nem o abro logo. Espreito, leio umas frases, ouço cá dentro uns sonhos extraídos dos poemas e sonho. Tremo e agito-me como se uma vaga de solidão me arrastasse para um canto obscuro da noite. Mais tarde, atraído pelo mistério, encho-me de coragem e leio esse projeto de mundo sempre escondido em cada linha do poema. Por instantes, deixo de ter medo e amo os elefantes.

João Garcia Miguel, fundador e diretor da Companhia João Garcia Miguel

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