Os bancos maus

Por muito que custe e seja impopular, é preciso olhar para os factos.

Os bancos estão de novo nas notícias, quer na Europa com as dificuldades do Deutsche Bank quer nos EUA com a fraude no Wells Fargo. Voltam por isso os argumentos passionais e irracionais sobre o sector bancário, que já é há séculos o centro de todas as teorias da conspiração. Por muito que custe e seja impopular, é preciso olhar para os factos.

Primeiro: os bancos exploram os empresários, impondo garantias infinitas que lhes removem todo o risco. Durante décadas falei com empresários e ouvi isto. Quando nos últimos cinco anos as empresas fecharam sem pagar os empréstimos e os bancos acumularam milhares de milhões de “imparidades”, ninguém se queixou desta dádiva para o bolso dos empresários.

Segundo: os bancos e os seus acionistas ganham sempre dinheiro. Não pagando pelos depósitos e emprestando a grandes taxas, leio que os bancos são um negócio da China. Sem reparar que eles têm perdido milhares de milhões todos os anos. Sem contar as enormes perdas dos acionistas, incluindo os famosos Joe Berardo a Isabel dos Santos.

Terceiro: os banqueiros são muito poderosos, ninguém se mete com eles, falta regulação. Esquece que quase metade dos grandes banqueiros portugueses do início do século já estiveram em prisão preventiva. Esquece que há mais reguladores por milhão de vendas no sector bancário do que em qualquer outro sector económico.

Quarto: o problema está na ganância dos banqueiros, capitalistas privados gordos com bónus e sem escrúpulos. Mas olhamos para as empresas do Fortune 500 e vemos que os CEO dos bancos estão muito longe de ser os mais bem pagos. Olhamos para a crise bancária europeia e vemos as maiores perdas nos bancos regionais espanhóis e alemães que eram semipúblicos e geridos por ex-políticos e personalidades locais. Em Portugal, ser público e pagar menos aos seus administradores não impediu a CGD de acumular perdas tão grandes como as dos bancos privados.

Quinto: passamos a vida a salvar bancos em vez de ajudarmos os pobres. Nos chamados “resgates bancários”, incluindo os mais recentes Banif e BES, os administradores perderam o emprego, os acionistas perderam o dinheiro, o nome e o prestígio foram-se, e o número de trabalhadores encolhe todos os anos. Resgatados foram os depositantes, que não perderam um cêntimo, e as pessoas que precisavam de empréstimo para comprar casa ou criar empresa, que não ouviram do banco que não havia dinheiro para nada nos próximos meses.

Tenho a certeza de que há pelo menos mais cinco razões para odiar os banqueiros e que nas redes sociais este texto vai circular com o comentário “olha este no bolso dos bancos”. Para que fique claro, há problemas sérios no sistema financeiro e não devemos ter grande pena dos banqueiros. Mas repetir vezes sem fim os mesmos argumentos errados leva à repetição dos erros do passado. Não me consigo esquecer de há uns anos ver uma edição do Prós e Contras com quatro jovens brilhantes, da direita à esquerda, e todos concordavam em que devíamos nacionalizar os bancos portugueses.

Professor de Economia na London School of Economics

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