Os bilionários enriqueceram ainda mais na pandemia

Ao esticarmos uma linha que represente a população global veremos que numa ponta muito elástica estão concentrados os pobres, na outra, bastante retraída, os multimilionários.

Seres que desenvolveram um poder de concentração de riqueza extraordinário cujo mecanismo não falhou nem mesmo durante a pandemia. Muitos enaltecem essa capacidade e os têm como referência de sucesso o que transforma aquilo que era para ser ofensivo em algo normal, a vida como ela é. E no fundo é isso mesmo. Enquanto muitos padecem, outros poucos enriquecem ainda mais. E enriquem por quê? Porque sim. Só por isso.

Os bilionários americanos, por exemplo, viram suas riquezas aumentarem na ordem de 15% durante a pandemia. Um relatório da Americans for Tax Fairness em conjunto com o Institute for Political Studies, afirma que a fortuna dos 600 bilionários americanos cresceu US$ 434 mil milhões nos primeiros três meses de pandemia. E que o património líquido desses seres abençoados por todos os santos, cresceu para US$ 3,382 triliões ante os US$ 2,948 triliões do período pré-crise. Bilionário é aquela figura que já tem de tudo com sobra para suas futuras gerações. Quando constatamos que seu património liquido cresceu, temos de perguntar: para quê? Não vai mudar absolutamente nada em suas vidas. São pessoas que têm dinheiro acima do necessário.

Mas existe essa história de dinheiro acima do necessário? Para você e para mim, não. Todo dinheiro é necessário e será usado rapidamente. Mas para aqueles bilionários chega uma hora em que não se precisa de mais dinheiro do que já se tem. Por exemplo, quem faz parte desse grupo e sonha em comprar um avião, compra. Ainda que tenha dinheiro para uma frota de airbus, não precisa de dois aviões. Um basta. Sonha com uma ilha? Quem precisa de duas? Seu sonho de consumo é um iate de luxo, ninguém tem dois, ainda que tenha dinheiro para tal, porque é bobagem. Carros desportivos, joias, roupas, viagens, são coisas banais para esses endinheirados.

Então, se o bilionário em questão já tem o suficiente para manter esse luxo e garantir que seus dependentes usufruam dessa vida. Ao acumular mais dinheiro ele não vai comprar outra ilha, outro avião ou outro iate. Assim como a ausência desse dinheiro não afetará em nada a riqueza de sua descendência. Então, qual o propósito de se acumular mais riqueza se o dinheiro que possui já oferece acesso a tudo o que a vida pode proporcionar de melhor? A resposta é simples: Poder. Quanto mais se acumula, mais poder se concentra nas mãos de quem tem mais sobre aqueles que têm menos.

Nos EUA são “600 bilionários” num país de 320 milhões de habitantes. Foi assim que se desenhou por lá a distribuição de riqueza. Mas é assim em toda parte. Chega a ser pior no Brasil onde o 1% mais rico do País é aquele que mais acumula riqueza, acredite, no mundo. O que transforma o país no mais desigual do planeta.

O fato é que a grande concentração de riqueza está nas mãos de 1% da população mundial. Até aí não haveria problema algum se sobrasse dinheiro para o restante da população. Mas esse 1% de bilionários detém a mesma riqueza que os outros 99% da população global, aí é que a coisa complica. O cobertor fica curto e não há hipótese de cobrir a todos. Há dinheiro demais nas mãos de poucos e dinheiro de menos nas mãos de muitos – quando há porque o número de miseráveis cresce a cada dia e isso tem atingido a base da classe média.

O dinheiro é uma coisa finita. O número de moedas no mercado tem limite. Para ilustrar toscamente seria como dizer que possuímos 1000 dinheiros num mundo onde vivem mil pessoas. Se alguém tem dois dinheiros, outro alguém está sem nenhum. Ocorre que no nosso mundo o bilionário não acumula apenas dois dinheiros, acumula múltiplos dinheiros. E esse acúmulo haverá de faltar na mão de muitos cidadãos. Primeiro na mão do miserável, mas já está a acontecer no bolso da classe média nos últimos anos. Isso deu espaço até mesmo para discurso de líderes de direita que prometem recolocar a classe média de volta ao seu “merecido lugar”. Mas nem eles sabem que essa é uma conta que nunca fechará.

E como a vida é uma caixinha de surpresas, surgiu a pandemia. Tudo o que parecia bom, ficou ruim. O que se arrastava a tentar sair de crises setoriais, travou. E o que estava ruim, desandou de vez.

Foi o momento em que parecia estar mesmo ruim para toda gente. Todos nivelados e igualados como seres humanos indefesos. Mas... e sempre há um “mas”, em meio a tantas mazelas para a classe média e, por tabela, para os miseráveis, um movimento no mercado de ações se descolou dessa realidade. Houve intervenção dos bancos centrais que, do Japão à Austrália, se juntaram ao Federal Reserve para injetar liquidez nos mercados, acalmar os ânimos e segurar as taxas de juros. Só o Banco Central americano injetou 1 trilião de dólares na economia. O do Japão comprou dívida das empresas. O da Austrália colocou dinheiro no mercado. A manobra resultou.

Após enfrentar números negativos durante três meses consecutivos no comércio, o consumo americano está positivo na casa dos 17%, e ainda em crise. A recessão prevista é de 9% nos EUA.

O IBOVESPA, índice da Bolsa de Valores de São Paulo, o principal do Brasil, chegou a 120 mil pontos no início do ano. Em 23/3 despencou para 63 mil pontos. No dia 08/6 bateu 97 mil pontos. Uma recuperação de 50% em relação aos 63 mil pontos atingidos na queda. O que isso nos mostra? Que quem comprou ações em março ganhou uma pipa de massas. Em outras palavras, quem tinha 10 dinheiros em março, dois meses e meio depois contabilizava 15 dinheiros. Aumentou 50% sua fortuna. E você se pergunta: quem, raios, compraria ações em março de 2020, em plena explosão da pandemia? Quem tem a sobrar. Não foi você, claro.

No dia 28/7 o índice BOVESPA já estava em 104 mil pontos, a subir mais 16 pontos a fortuna de quem investiu em março terá crescido 100%, terá dobrado. Quem investiu 10 dinheiros, agora terá 20. Não é possível que isso não falte nas mãos de muitos. Engana-se quem pensa o contrário.

O miserável continua a lutar para comer, enquanto a classe média luta para se manter e o bilionário, aquele que não precisa de mais dinheiro, dobrou a sua fortuna na pandemia. A olhar de longe, parece que esse problema de distribuição de renda e acúmulo de dinheiro continuará a gerar miséria e jamais terá solução. A olhar de perto, parece que estamos longe.

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