Opinião

Os desafios de Lagarde à frente do BCE

Christine Lagarde, diretora do FMI.  (Foto: REUTERS/Jacky Naegelen)
Christine Lagarde, diretora do FMI. (Foto: REUTERS/Jacky Naegelen)

A maioria dos observadores espera que, ao nível da política monetária, Christine Lagarde mantenha a postura de Draghi.

Os oito anos da presidência de Mario Draghi no Banco Central Europeu (BCE) ficaram marcados sobretudo pela crise da dívida soberana Europeia e pela subsequente recuperação. Também é de notar que durante o seu mandato, Draghi não subiu as taxas de juro uma única vez, o que não deixa de ser extraordinário e um sinal claro da complexidade da situação vivida na Europa durante a última década.

A forma decisiva como Mario Draghi afirmou, em 2012, que o BCE faria o que fosse necessário para salvar a moeda única, provavelmente evitou um agravamento da situação; que poderia ter tido consequências ainda mais graves e até ameaçado a sobrevivência do Euro. Podemos, portanto, creditar o atual presidente como o responsável pela salvação da moeda única Europeia e, até certo ponto, da recuperação que se seguiu. Este será o seu grande legado.

No entanto, a salvação da moeda única e retorno a uma situação de expansão exigiu a utilização de todas as opções disponíveis; taxas de juro a níveis historicamente baixos e o lançamento de um programa de compra de ativos com proporções épicas (o balanço patrimonial do BCE é de aproximadamente 4,7 triliões de euros).

Neste momento o crescimento médio das economias da zona Euro está em níveis anémicos, pouco acima de 1% e a inflação abaixo do alvo de 2%. Por outro lado, a disputa comercial entre os EUA e a China ameaça escalar, o que seria uma séria ameaça ao crescimento da economia global, podendo espoletar uma nova recessão. Uma outra fonte de preocupação advém do crescimento de movimentos populistas em vários países da união, alimentados em grande parte pela desilusão sentida por muitos, em relação às elites e aos políticos em particular; o crescimento da desigualdade na distribuição de riqueza, a perda de regalias sociais e políticas de austeridade que se seguiram à grande recessão de 2008/09, muito para isso terão contribuído.

É neste cenário repleto de desafios que Christine Lagarde, a próxima presidente do BCE, entrará em cena. A atual diretora geral do Fundo Monetário Internacional irá deixar em Washington um legado de inovação. O FMI tem hoje uma aura que se distingue da imagem de marca que carregou até há pouco tempo; ilustrada sobretudo por dolorosos planos de austeridade e disciplina fiscal, que em vários países, tiveram elevados custos sociais. A senhora Lagarde alterou de certa forma esta postura, mencionando várias vezes que austeridade e disciplina fiscal poderão não fazer sentido, quando as taxas de juro e a inflação se mantêm em níveis considerados abaixo dos ideais, defendendo défices maiores, medidas para reduzir a desigualdade e a abolição de subsídios a tecnologias poluentes.

Não sendo economista e tendo feito carreira sobretudo na política, foi ministra das finanças no governo de Nicholas Sarkozy, em França; Lagarde é conhecida pela habilidade na comunicação, capacidade de influenciar quem a rodeia e por pensar fora da caixa. Atributos que serão preciosos para gerir a complexidade da situação com que se vai deparar. Com taxas de juro negativas e na posse de 4.7 triliões de ativos resultantes do seu programa de compras, o BCE esgotou o habitual arsenal de medidas ao dispor dos bancos centrais para utilizar caso as previsões mais pessimistas se venham concretizar e a Europa entre de novo em recessão. É imprescindível que a nova liderança do BCE seja forte face aos avanços do populismo, o fim do ciclo de expansão e as consequências das taxas de juro muito baixas ao nível da liquidez e do crédito.

A maioria dos observadores espera que, ao nível da política monetária, Christine Lagarde mantenha a postura dovish de Mario Draghi. Mas sobretudo existe a esperança de que a nomeada para a liderança do BCE consiga, através da sua destreza política e capacidade para o diálogo, expandir o campo de intervenção do banco central. Políticas de estímulo ao consumo e uma maior harmonização e solidariedade fiscal são vistas por muitos como fundamentais para a sobrevivência do Euro e do próprio projeto Europeu. No entanto estas medidas requerem maior sintonia entre os diversos países que utilizam a moeda única. Será este o grande desafio de Lagarde, contribuir para estimular o diálogo e gerar mais consenso entre os diferentes estados membros, porque a sobrevivência do Euro e do próprio projeto Europeu poderá de outra forma vir a estar em causa.

Ricardo Evangelista é analista sénior da ActivTrades

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