Opinião: Carlos Brito

Os dez trabalhos de Ursula von der Leyen

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Fotografia: Francois Lenoir/Reuters
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Fotografia: Francois Lenoir/Reuters

Se não formos capazes de dar uma resposta aos desafios referidos, nem vale a pena preocuparmo-nos com greves, salários e serviços públicos

Depois do buzz criado em torno da constituição da equipa de Ursula von der Leyen e da escolha, merecidíssima, de Elisa Ferreira como comissária com o pelouro da Coesão e Reformas, há que refletir sobre os grandes desafios que a Comissão Europeia tem pela frente.

A este respeito, vale a pena ler um relatório publicado pelo Parlamento Europeu no início deste ano sobre os principais reptos que a Europa comunitária enfrenta – e a que Von der Leyen e a sua equipa não podem deixar de dar uma atenção muito especial e, em particular, uma resposta efetiva:

– a evolução da União Europeia a 27 na sequência do Brexit – e da permanente ameaça de novos ‘exits’;

– o financiamento da União bem como a repartição e aplicação de fundos no âmbito do quadro comunitário pós 2020;

– o protecionismo adotado por um número crescente de economias, sendo a guerra comercial EUA – China a manifestação mais visível, mas não certamente a única;

– as relações com África – tratada naquele relatório como o ‘continente gémeo’ da Europa;

– o desenvolvimento de uma política para o mar, conjugando a vertente sustentabilidade com a exploração de recursos;

– a transformação digital com todos os impactos daí decorrentes nos modelos de negócio, nas relações laborais e na vida dos cidadãos em geral;

– o desafio da inovação como fator crítico de sucesso da posição competitiva da Europa no mundo – não esquecendo a própria inovação social sem a qual a tecnológica será sempre limitada a longo prazo;

– o desenvolvimento de sistemas de transporte mais sustentáveis, onde a mobilidade elétrica assume uma posição de destaque;

– a segurança interna decorrente não só da ameaça terrorista mais tradicional, mas também da cibernética – isto para não falar na sempre presente ameaça do expansionismo russo;

– e, last but not least, a implementação de um programa que dê resposta a estes reptos dentro do atual quadro de representação das famílias políticas no Parlamento Europeu decorrente das eleições realizadas em maio passado.

Vistos de Portugal, estes desafios parecem vagos e distantes. Aquilo que nos preocupa e ocupa as notícias – ou será ao contrário? – são as greves em setores mais ou menos paralisantes do país, são os salários e as reformas, é a corrupção, a segurança no trabalho… Sem dúvida, aspetos importantes que tocam na pele de qualquer português.

Mas uma coisa é certa: se não formos, enquanto europeus, capazes de dar uma resposta efetiva aos desafios referidos, nem vale a pena preocuparmo-nos com greves, salários e qualidade dos serviços públicos – porque nessa altura já não haverá grandes soluções.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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