Os diques do BCE contra a subida do mar e da inflação

Se grandes crises surgirem, a chave de respostas será, na prática, a mesma do passado: descer juros até não poder mais e comprar dívida até a Alemanha se fartar.

A 26 de julho de 2012, fará nove anos daqui a duas semanas, na véspera dos Jogos Olímpicos em Inglaterra (Londres), Mario Draghi, o então presidente do Banco Central Europeu (BCE), teve de fazer com palavras aquilo que já não era possível com as ferramentas convencionais da política monetária.

Sem mais nada à mão para travar a fragmentação da moeda única, Draghi não economizou nas palavras, nem no significado e pragmatismo. "ECB is ready to do whatever it takes". "Believe me, it will be enough." Faremos tudo o que for preciso para salvar a zona euro da implosão, acreditem. Os banqueiros mais poderosos do mundo, sentados em Londres, perceberam.

O BCE inauguraria, tardiamente, segundo alguns observadores, o seu quantitative easing. E a zona euro seria salva, pela primeira vez. Tinha 13 anos.

Lagarde, sucessora imediata de Draghi, herdou uma instituição muito mais preparada e, diga-se, até com enorme flexibilidade para responder a crises, como já se viu na resposta à pandemia. Dentro do colete-de-forças do seu mandato, o BCE até mexe. Mas o problema agora é o tamanho.

O BCE tornou-se gigantesco com as pilhas de dívida que guarda no seu balanço e isso inquieta muita gente. Medido em valor de ativos, o BCE é bem maior do que a Reserva Federal (Fed), atualmente. Os alemães do Bundesbank não disfarçam o incómodo com tantas obrigações em carteira.

Mas é de permanência que falamos. Será o BCE capaz de ser flexível e ágil sem ser empurrado por crises agudas e severas, como aconteceu até aqui? Foi com o subprime, foi com a crise da dívida, foi com a pandemia.

Em todos estes eventos, foi obrigado a crescer, a amadurecer, e isso trouxe dores de crescimento, algumas dúvidas existenciais e prejuízos económicos e sociais que ainda hoje perduram ou são bem lembrados. Muitos empobreceram, as desigualdades aumentaram de forma dramática, os riscos para a democracia tornaram-se evidentes.

Lagarde tem ou reservou tempo para encontrar a chave do problema que é o futuro próximo, a caixinha de incertezas, o mar a crescer e a transbordar. O mundo está a tentar sair de uma crise grave, mas atípica, assimétrica, em que um destabilizador (um vírus que usa coroa) surgiu sem aviso.

O novo plano soa assim: faremos tudo o que for possível para conseguirmos usar novamente as taxas de juro (subi-las quando a inflação estiver muito além dos 2%, descê-las quando o ritmo dos preços estiver abaixo), entregar estabilidade de preços e, ato contínuo, tentar salvar o meio ambiente.

A questão é saber se a próxima grande crise não galgará novamente os diques no BCE, apanhando-o desprevenido e obrigando-o novamente a um salto epistemológico. Christine Lagarde, a presidente do BCE, sabe que não precisa de salvar a zona euro agora. O projeto do euro, adulto na casa dos 20, está mais organizado e sabe andar nos mercados. Mas chega?

Pelo que se sabe e foi dito acerca da nova estratégia, não chega. Qualquer nova crise inesperada e grande, qualquer subida brusca dos imprevisíveis e temperamentais oceanos globais, vai embater nos mesmos diques (agora com uma camada de tinta protetora) que o BCE tem para preservar a unidade da zona euro.

O BCE já deixou claro que consegue trabalhar no limite e em estados de emergência, mas o problema de fundo continua. E quando a maré subir a sério?

Nova estratégia, objetivos antigos

Vários governadores do euro, Mário Centeno incluído, já disseram que a política monetária não vai mudar. "O objetivo primordial mantém-se inalterado. As decisões de política monetária pretendem, como até aqui, assegurar a manutenção da estabilidade de preços na zona euro". Palavra de Frankfurt traduzida pelo Banco de Portugal.

A forma de cumprir esta missão teve alguns ajustamentos, mas pela reação dos mercados, não impressionou grandemente. A nova meta da inflação mudou, mas não há alaridos aqui. "Até aqui, o BCE pretendia que a inflação, medida pelo índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC), se situasse num nível abaixo, mas próximo de 2% no médio prazo."

Agora, a meta é 2% mesmo, podendo oscilar para cima ou para baixo, mas não muito. Com isto, o BCE quer, essencialmente, voltar a ter as suas taxas de juro funcionais (hoje estão coladas a 0% e pouco podem fazer).

Se tolerar inflação acima de 2% durante algum tempo, significa que vai demorar mais até começar a subir juros do que no regime que vigorou até aqui. Mas não muito mais. Em todo o caso, para países e povos endividados (como Portugal, Grécia, Espanha) é uma boa notícia, claro. É mais algum tempo (pouco) até terem de se ajustar nesse futuro que há de vir.

Mas o que mudaria a face da zona euro e do BCE, seria uma medida da inflação diferente e um objetivo duplo, em que emprego e crescimento constasse da equação. Com esta reforma estrutural interna, o BCE deixou claro que não quer ser a Fed. A inflação continuará a ser o seu alfa e ómega.

Não havendo metas de crescimento, o BCE apenas reconhece que é possível melhorar a medida da inflação. Por exemplo, Lagarde prometeu incluir os custos da habitação ocupada por proprietários na taxa de inflação relevante para as famílias. Mas também aqui, fica para as calendas, "longo prazo", o projeto pode demorar dez anos até estar pronto.

Finalmente, o nó górdio do combate às alterações climáticas. A formulação proposta pelo BCE surge algo torta ou enviesada. Para Frankfurt, o clima tem implicações na estabilidade de preços e dos bancos. Correto. No entanto, o contrário não está refletido neste novo roteiro do banco central.

As preferências e as decisões de investimento dos bancos e das grandes empresas (com fundos ultra baratos do BCE) em prol (ou não) de um mundo mais verde e sustentável não são diretamente questionadas, sequer. Estranho, no mínimo, tendo em conta a urgência do problema (gigante) em causa e a necessidade de ação firme e politicamente comandada.

Resumindo. Tudo funcionará bem nesta estratégia se a maré não subir demais ou repentinamente. Se grandes crises surgirem, a chave de respostas será, na prática, a mesma do passado: descer juros até não poder mais e comprar dívida até a Alemanha se fartar.

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