Tecnologia

Os economistas de hoje poderão vir a ser os motoristas de Uber amanhã

TESTE DO PRIMEIRO VEÍCULO AUTÓNOMO DE TRANSPORTE PÚBLICO
TESTE DO PRIMEIRO VEÍCULO AUTÓNOMO DE TRANSPORTE PÚBLICO

O crescimento da produtividade não tem acompanhado o rápido desenvolvimento tecnológico e o fosso entre tecnologia e produtividade está a aumentar.

Há uns anos globalização e tecnologia eram vistos com grande entusiasmo, não só pelas novas oportunidades que trariam mas sobretudo pelo infindável número de benefícios que daí adviriam. Esse entusiasmo, na área da economia digital, tem-se aos poucos vindo a transformar em ceticismo. Hoje quando falamos de tecnologia, parece que os receios são superiores aos benefícios. A análise sobre o desafio tecnológico alterou-se profundamente nos últimos anos.

Hoje, ao falar-se de tecnologia enumeram-se sobretudo desafios e criam-se resistências: no trabalho e no futuro do trabalho, competências, privacidade, segurança de dados, cibersegurança, segurança e defesa nacionais, monopólios, aumento das desigualdades, impacto no desenvolvimento social e humano, desenvolvimento cognitivo das crianças, política fiscal, falta de controlo democrático, entre muitos outros aspetos.

O desenvolvimento tecnológico não tem parado e é hoje palpável em várias áreas e no entanto o crescimento da produtividade não tem acompanhado essa tendência. O fosso entre tecnologia e produtividade não cessa de aumentar. E muito provavelmente os benefícios da tecnologia não serão mensuráveis, pelo menos em grande parte, em termos de produtividade ou crescimento do PIB. A procura por serviços digitais, em que grande parte desses serviços será gratuita, é disso exemplo. Nas redes sociais há vários grupos de apoio que se formam para ajudar quem sofre de doenças raras. O acesso a informação sobre saúde é hoje muito mais aberto e acessível a todos. Tudo isto são serviços importantes, que criam valor e que não entrarão em qualquer cálculo de crescimento do PIB ou mesmo produtividade.

Não se pode avaliar os benefícios da tecnologia apenas recorrendo aos indicadores convencionais porque esses simplesmente não são adequados para tal. O desenvolvimento tecnológico está para ficar e vai intensificar-se. Está presente em todas as áreas do nosso dia-a-dia, no nosso trabalho, no lazer, nas nossas relações sociais e políticas. Na maneira como os nossos filhos brincam e jogam. Esse desenvolvimento, tão acelerado é provavelmente uma das características principais da sociedade em que vivemos – o ritmo, escala e natureza da mudança é de facto muito significativo. Pode haver a tendência de querer limitar ou resistir a esse desenvolvimento tecnológico e tem-se assistido nos últimos tempos a um aumento da animosidade entre a política e o mundo tecnológico empresarial, especialmente aquele representado pelos grandes gigantes mundiais. Isto não é útil a ninguém.

É um facto que muitas destas mudanças são pensadas, programadas, planeadas e executadas em salas não muito grandes em Silicon Valley, não sujeitas a qualquer tipo de controlo democrático e muitas vezes não sujeitas a qualquer regulação. Caminhar-se para uma maior regulação é inevitável e a Europa tem de facto feito, e bem, esse caminho — hoje já se fala em questões de privacidade, gestão e segurança de dados e a Europa deu passos fortes nesse sentido.

Mas não tenhamos ilusões: os governos podem tentar limitar ou até inverter esta tendência de desenvolvimento tecnológico mas esta é a direção que o mundo tomou. Constata-se em praticamente qualquer atividade — desde a Medicina, passando pela Impressão 3D e acabando no setor dos Transportes. Avançam os veículos e camiões autónomos. Um recente estudo da McKinsey mostra que nos EUA, a introdução dos camiões autónomos implicará uma redução dos custos operacionais na ordem dos 45%, ou seja, entre 85 e 125 mil milhões de dólares, isto numa economia em que cerca de 60% dos bens são transportados por este meio. Perder-se-ão certos postos de trabalho, seguramente haverá menos motoristas, mas criar-se-ão outros pois será necessário manter toda a estrutura de manutenção e de apoio à automação.

Isto afetará Portugal e a Europa, onde a situação não é muito diferente. O comércio eletrónico já movimenta cerca de 15% do total das compras dos norte-americanos. Na Europa, o comércio eletrónico também não para de aumentar e a indústria já movimenta cerca de 600 mil milhões de euros, o dobro do que representava há apenas cinco anos.

Quais são os grandes players responsáveis por este crescimento? As norte-americanos Amazon e eBay e o grupo chinês Alibaba. Muda o perfil da economia e alterar-se-ão as competências — os economistas de hoje serão os motoristas de Uber amanhã.

Não podemos correr o risco de na Europa apenas nos centrarmos na área da regulação e tributação das grandes empresas tecnológicas. Se a Europa não conseguir nesta área ombrear com os EUA e China, a geopolítica mundial alterar-se-á profundamente nos próximos dez anos. E a verdade é que a Europa não tem conseguido competir com americanos e chineses nesta área: segundo a McKinsey, a Europa atraiu apenas 11% do investimento em inteligência artificial, os EUA 50% e a China praticamente todo o restante. A UE capta apenas dois terços do potencial digital dos EUA e o investimento em I&D estagnou nos 2% dos PIB.

Convém recordar aquele que foi o grande desígnio da União Europeia, acordado precisamente em Lisboa durante a presidência portuguesa da UE, em 2000: “Tornar a UE na economia mais dinâmica e competitiva do mundo, com base no conhecimento, antes de 2010”. Em 2010, veio a nova estratégia, Europa 2020.

A Europa faz ótimas estratégias mas as dificuldades em passar à prática aquilo que se define como os grandes desígnios é patente. O que se pode fazer em concreto? A nova Comissão Europeia terá um papel determinante. É preciso apostar na digitalização das pequenas e médias empresas, à escala nacional e europeia, fomentado a criação de novas plataformas digitais que incite à cooperação entre PME de diferentes setores, potenciar o setor de public procurement europeu que representa cerca de 14% do PIB, investindo em inovação e no digital e fortalecer o programa Horizonte 2020 — a Europa pode simbolizar a quarta revolução “industrial” modernizando os seus serviços públicos e fazer do setor público, tantas vezes injustamente criticado, um modelo de inovação, forçando as empresas a concorrerem digitalmente entre si para o fornecimento de serviços aos Estados.

A inteligência artificial chegou e veio para ficar: a única possibilidade para lidar com esta nova “revolução” é também fazer uma “revolução” nas políticas públicas. O partido político que melhor souber interpretar esta nova realidade, com os desafios e benefícios que acarreta, e aplicá-la numa nova geração de políticas públicas irá provavelmente dominar o panorama político no futuro.

Hugo Zsolt de Sousa é diretor no Institute for New Economic Thinking

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