Os efeitos permanentes do novo coronavírus

Coronavirus in China daily life
EPA/ALEX PLAVEVSKI

Tecnologias para evitar contacto humano, repensar conferências e estratégias de produção, novos protocolos: o que o Covid-19 trará não vai desaparecer

O Mobile World Congress devia ter começado ontem em Barcelona, abrindo as hostilidades numa das semanas tecnológicas mais importantes do ano. Ao invés disso, as portas da Fira Gran Via ficaram fechadas porque a ameaça do Covid-19, o novo coronavírus, levou a GSMA a cancelar o evento.

Ontem, em vez da apresentação de novos smartphones, o índice Dow Jones caiu mais de 900 pontos com as notícias vindas da Itália e da Coreia do Sul, onde o coronavírus está a infectar centenas de pessoas. A operadora norte-americana Verizon cancelou a sua aparição na conferência anual da RSA, que está a decorrer esta semana em São Francisco, juntamente com outras 13 empresas. Os impactos deste surto, que pode muito bem vir a tornar-se numa pandemia, já são dramáticos no número de fatalidades, infectados e isolamentos. E os seus efeitos irão, mais que provavelmente, tornar-se permanentes.

Viajei este fim-de-semana entre Portugal e São Francisco e não vi grandes medidas de prevenção nos aeroportos, uma vez que ainda se considera que o problema está do outro lado do mundo. Pouca gente a usar máscara cirúrgica, dispensadores de gel anti-germes vazios, pessoas a tossirem para o ar, pessoas a usarem os secadores de mãos nas casas de banho dos aeroportos, algo que se sabe ser um disseminador de partículas nocivas. É bom sinal não haver pânico. É mau sinal não haver medidas adicionais de protecção.

A Organização Mundial de Saúde está a avisar que o mundo deve preparar-se para o Covid-19 se tornar uma pandemia e as implicações são inconcebíveis neste momento. Nunca houve uma altura na história da civilização em que estivéssemos tão ligados uns aos outros. E não, o Covid-19 não é comparável à gripe que todos os anos faz muitas vítimas mortais. Este vírus está a mandar abaixo metrópoles inteiras numa das maiores potências económicas do mundo. Com a desinformação que grassa nas redes sociais, as baterias estão apontadas aos alvos errados. Não é deixar de comer em restaurantes de fusão asiática que vai ajudar. O impacto, e não me refiro apenas à paranoia que subsistirá mesmo quando o surto estiver controlado, levará a mudanças permanentes.

Novas medidas para controlo de surtos desta natureza, que falhou na China devido à especificidade do regime político e a responsabilização de oficiais, serão implementadas. Tecnologias que permitem a desinfecção remota de locais, sem a presença de humanos, serão desenvolvidas e aprimoradas. Entrega de encomendas com recurso a sistemas automáticos e sem contacto humano serão mais comuns. Sistemas de utilização pública transitarão do toque para o gesto ou comando de voz.

Talvez se repense durante uns tempos a azáfama de grandes conferências que juntam 50, 100, 200 mil pessoas várias vezes ao ano. Em Silicon Valley, os negócios estão a ser feitos sem apertos de mão. Talvez haja mesmo um repensar da concentração da produção num só país, visto que a paralisação no coração tecnológico da China está a afectar todo o tipo de empresas que dependem das instalações na região. A Apple já avisou que vai falhar as previsões do trimestre. O Facebook está com problemas na produção do Oculus Quest VR. A Asus suspendeu a a produção do ROG Phone II. A Tesla está a adiar a entrega de unidades Model 3.

O empreendedor Balaji S. Srinivasan, co-autor de uma série de papers em genómica microbiana e ex-professor de bioinformática em Stanford, tem escrito de forma abundante na sua conta de Twitter sobre a gravidade da situação e o que ele considera ser a abordagem errada da discussão pública.O vírus, escreveu, “vai no mínimo catalisar um movimento higiene 2.0 pela Ásia”, onde as tecnologias para evitar contacto humano vão acelerar. O mundo globalizado que sairá desta crise será diferente do que tivemos até agora.

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