Os mortos-vivos

Há um casal que, todos os dias úteis à hora do expediente está com um grande cartaz à porta da Procuradoria-Geral da República, na Rua da Escola Politécnica. Pede justiça há mais de 25 anos, à chuva e ao sol. Diz que os deram como mortos e lhes ficaram com os bens. Um jornalista, ao escrever sobre eles, batizou-os de "mortos-vivos".

Há muitos anos, já fascinado pelo caso, perguntei a um responsável do Ministério Público o que se passava. Nunca me esqueci da resposta: "Se eles tivessem um bom advogado..." Fica assim a primeira lição desta breve crónica: em Portugal, até os mortos deviam investir em bons advogados.

Para um leigo, o caso parece fácil: se eles se mexem e protestam é quase certo que estão vivos. E se assim é, então quem os deu como mortos no mínimo enganou-se. E se ainda lhes ficou com o dinheiro, (a velha regra de seguir o dinheiro), então: caso resolvido!
Imaginem se a PGR tivesse bons advogados e tempo para tratar de um assunto de vida ou de morte com que todos os dias eram confrontados à entrada da sede. O caso já estava resolvido há décadas e os mortos-vivos podiam ter ido à vida deles, em vez de ficarem ali à porta, numa morte lenta.

Desculpem as piadas, certamente o caso é mais complicado do que parece, dizem até que os mortos-vivos não são bons da cabeça, o que, no entanto, é compreensível pois estão mortos há mais de 25 anos... Mas tenham calma, o caso será certamente resolvido, não pela justiça portuguesa mas pela natureza, com a triste morte dos mortos-vivos.
Se para provar que se está vivo é preciso ter um bom advogado, imagine o que será necessário para resolver casos complexos e de muitos milhões de euros... Tendo em conta as astronómicas verbas envolvidas talvez compensasse à justiça portuguesa investir na contratação de bons "advogados"... e se não houver dinheiro para isso, (a Europa nunca nos dá que chegue), que tal escrever leis mais simples, que não beneficiem o infrator? Ou contratar um almirante...
Está alguém ao leme?

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