Opinião: Ricardo Reis

Os negócios na prisão

REUTERS/David Ryder
REUTERS/David Ryder

"Tudo isto é relevante para Portugal e para a Europa. Menos apreciada é a razão pela qual Wanzhou foi detida."

Há quase duas semanas, uma executiva de topo do Grupo Huawei, Meng Wanzhou (que também é filha do dono da empresa), foi detida no Canadá a pedido das autoridades judiciais americanas. Os órgãos de comunicação social chineses classificaram o ato de atentado aos direitos humanos e o governo chinês exprimiu o seu profundo desagrado. Desde então, dois empresários canadianos foram detidos na China e Donald Trump, com a sua subtileza habitual, afirmou que Wanzhou seria uma arma nas negociações comerciais entre os EUA e a China.

Tudo isto é relevante para Portugal e para a Europa. Menos apreciada é a razão pela qual Wanzhou foi detida. Em 2013, a Huawei declarou ao seu banco HSBC que não tinha relações comerciais com o Irão, como era exigido pelo embargo dos EUA a esse país. Só que, através da sua subsidiária SkyCom, a Huawei revendia computadores da HP ao Irão. Wanzhou está agora acusada de fraude bancária.

Para os leitores mais esquecidos, em 2015 a administração Obama liderou um esforço internacional para renormalizar as relações com o Irão. Em troca do desmantelamento do programa nuclear iraniano, as sanções comerciais iriam ser progressivamente relaxadas. Só que, com a eleição de Trump no final de 2016 e a influência que a Arábia Saudita tem sobre a sua administração, o acordo com o Irão foi unilateralmente revogado pelos americanos. As sanções americanas foram reerguidas. Os europeus revoltaram-se e prometeram cumprir o acordo com o Irão assinando nas Nações Unidas por dezenas de nações, à revelia do que os americanos querem.

Estamos hoje num impasse. Os americanos, nas vozes do secretário do Tesouro Steven Mnuchin e do conselheiro para a segurança John Bolton, afirmam à boca cheia que os EUA vão perseguir quem violar as suas sanções, que entraram em vigor a 7 de agosto. A UE impôs um bloqueio às sanções americanas e afirmou que as empresas europeias que deixem de ter negócios com o Irão têm de pedir autorização à Comissão Europeia ou serão perseguidas legalmente.

Ponha-se por isso no lugar dos presidentes da papeleira Navigator, ou do Grupo Alves Bandeira, que vende pneus e lubrificantes, ou do mal-amado treinador de futebol Carlos Queiroz. Se continuarem a trabalhar com o Irão, arriscam-se a ser perseguidos pela justiça americana e a ser presos num aeroporto qualquer a mando dos EUA, tal e qual Wanzhou. Se pararem de trabalhar com o Irão, podem ser multados pelas autoridades europeias.

Suspeito que todos eles dormem descansados, confiantes de que a prisão de Wanzhou teve razões políticas, que têm mais que ver com as suspeitas de espionagem por parte da Huawei. Mas para todos os empresários que se julgam “donos disto tudo”, não se esqueçam de que a viragem da política internacional na direção do unilateralismo, nacionalismo e dos líderes fortes nos últimos dois anos não é só assunto de jornais. Num ápice, podem virar o seu mundo de pernas para o ar. Se ainda não estão convencidos, leiam sobre Carlos Ghosn no Japão.

Professor de Economia na London School of Economics

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