Opinião

Os novos analfabetos

Fotografia: Beawiharta/Reuters
Fotografia: Beawiharta/Reuters

Há que reconhecer a necessidade de se possuir um mínimo de literacia digital sob pena de sermos considerados analfabetos neste novo mundo.

A revolução digital está a ter um forte impacto no mundo do trabalho. Não sendo fácil estimar a sua verdadeira dimensão, sabe-se, no entanto, que os efeitos se vão acentuar de modo muito significativo no futuro próximo. O World Economic Forum, por exemplo, afirma que só na indústria a destruição de empregos poderá atingir os 47%. Por seu turno, a McKinsey estima que a automatização irá afetar 1,2 mil milhões de trabalhadores em todo o mundo.

Como em qualquer revolução tecnológica, haverá não só destruição mas também criação de postos de trabalho. Por exemplo, segundo a UNCTAD, faltam atualmente 1,5 milhões de peritos só na área da cibersegurança. Se o saldo global vai ser positivo ou negativo é difícil de saber nesta altura – embora a história nos dê razões para sermos otimistas. Todavia, uma coisa é certa: as competências necessárias para as novas funções serão radicalmente diferentes das associadas às que vão desaparecer.

Se é verdade que nem todos vamos trabalhar no desenvolvimento de tecnologias assentes em inteligência artificial, cloud computing, internet das coisas ou machine learning, há, no entanto, que reconhecer a necessidade de se possuir um mínimo de literacia digital sob pena de sermos considerados analfabetos neste novo mundo.

Só que o desafio não é só este. Para se ter uma economia e, principalmente, uma sociedade mais desenvolvida é necessário que a tecnologia esteja ao serviço das pessoas e não o contrário. Isto significa que, para além das competências digitais mais ou menos sofisticadas que qualquer cidadão vai ter de adquirir, será necessário desenvolver aquelas que, sendo tipicamente humanas, não poderão – em princípio! – ser apropriadas por uma máquina. Pensamento crítico, inteligência emocional, criatividade, liderança e julgamento ético são atributos que não estão (pelo menos para já) associados às máquinas.

Quer isto dizer que aqueles que não forem capazes de desenvolver as denominadas human skills sofrerão de uma outra forma de analfabetismo que se traduzirá na incapacidade de entender e lidar com máquinas e pessoas.

Em suma, competências digitais e humanas serão a base do trabalho: as primeiras decorrem da revolução tecnológica que estamos a viver; as segundas são um imperativo para colocarmos a tecnologia ao serviço das pessoas. Porque, ao contrário de todas as outras máquinas até agora criadas pela Humanidade, as atuais aprendem. E ainda por cima aprendem rápido como podemos constatar naquele aparelho com que andamos no bolso ou na carteira e a que chamamos telemóvel.

Os novos analfabetos são aqueles que se mostrarem incapazes de adquirir aquelas duas competências: digitais e humanas, porque estas também são passíveis de aprendizagem. O que traz novos e acrescidos desafios a todo o sistema de ensino, desde o mais básico ao superior, passando pela formação ao longo da vida. Quem não entender isto – seja pessoa, empresa, instituição de ensino ou governo – não se pode surpreender quando descobrir que o mundo lhe está a passar ao lado.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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