Opinião: Ana Rita Guerra

Os Óscares e a cultura do cancelamento

A passadeira vermelha dos Óscares 2020
A passadeira vermelha dos Óscares 2020 Ana Rita Guerra

Como o megafone das redes sociais amplifica desproporcionalmente o sentimento de ofensa de qualquer grupo de pessoas, os alvos são sempre certeiros

Em 92 anos de entrega dos Óscares em Hollywood, só houve duas edições sem apresentador: 2019 e 2020. A ausência de um anfitrião este Domingo marcou o segundo ano consecutivo em que a Academia não escolheu ninguém específico para dar a cara. Ao invés disso, fez circular 40 celebridades pelo palco do Dolby Theatre, que rebentou pelas costuras de excitação com a vitória inesperada de “Parasitas” em várias categorias-chave.

Hollywood é bem mais conservadora que aquilo que nos querem fazer querer, mas a decisão da Academia foi motivada pelo receio de nova onda de protestos. Estamos numa altura em que qualquer escolha será recebida com ultraje por uma porção da sociedade, mesmo que pequena. Como o megafone das redes sociais amplifica desproporcionalmente o sentimento de ofensa de qualquer grupo de pessoas, os alvos são sempre certeiros.

“Eles já não têm anfitriões. Porquê?”, perguntou Steve Martin a Chris Rock no segmento de abertura da cerimónia. “O Twitter”, respondeu o comediante. “Toda a gente tem tweets embaraçosos.” Tanto um como o outro foram escolhidos para apresentadores em edições anteriores dos Óscares, o que levou Martin a dizer que isto era uma despromoção. Mas isso foi antes da cultura do cancelamento.

O fenómeno não é certamente novo. Antes das redes sociais globais e do poder das hashtags, um deslize de tamanho considerável tinha potencial para dar cabo de carreiras inteiras – recorde-se o que aconteceu com Janet Jackson quando um “mau funcionamento” do guarda-roupa expôs um mamilo no intervalo da Super Bowl 2004.

Pessoas “canceladas” por alguma coisa que corre mal ou um disparate que fazem não é novidade. Novo é o ultraje ser decidido por algoritmos enviesados que promovem as reacções extremas e causam um efeito de bola de neve. Novo é a cultura do cancelamento ir buscar episódios do passado como arma de arremesso no contexto actual. Kevin Hart, que fora escolhido para apresentar os Óscares no ano passado, viu essa oportunidade esfumar-se por causa de tweets que escrevera vários anos antes e pelos quais já pedira desculpa. J.K. Rowling foi “cancelada” por tomar uma posição considerada transfóbica. Dua Lipa meteu-se numa embrulhada quando foi a um clube de strip depois dos Grammys.

Nesta cultura do cancelamento, episódios graves são misturados com patetices escritas em redes sociais. Uma pessoa com posições nazis não equivale a um comediante que fez piadas insensíveis. O discurso de ódio e apelo à violência não são equiparáveis ao retweet mal ponderado de um meme. Estão a ver onde isto vai chegar?

No seu discurso de vitória com o Óscar de Melhor Actor Principal, este Domingo, Joaquin Phoenix criticou esse fenómeno do cancelamento imediato de pessoas ao mínimo percalço, admitindo que ele próprio foi um “canalha” no passado. Agora cresceu. Amadureceu. Mudou de perspectiva. No seu discurso, falou da necessidade de colaborarmos uns com os outros para abrir um caminho de redenção. E apesar de essa visão ser utópica num momento com divisões sociais tão agudas, trabalhar nesse sentido faz mais pelo progresso que “cancelar” pessoas. O ex-presidente Barack Obama também fez menção a esta tendência, afirmando que cancelar gente a torto e a direito não faz de ninguém mais progressista e não é activismo de espécie alguma.

Repudiar esta cultura do cancelamento não significa ser intolerante a críticas online – o escrutínio de quem tem visibilidade pública é inevitável numa sociedade conectada. Todavia, há que rejeitar o término imediato e a mentalidade da multidão. Ninguém muda de ideias por ser excluído ou cancelado. Ninguém atravessa uma ponte para o outro lado da barricada por levar um pontapé mediático. Obama pode ser um “boomer” e Phoenix um ex-canalha, mas sobre a cultura do cancelamento ambos têm razão.

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