Os riscos catastróficos em 2020 e a importância do risco sísmico em Portugal

Desde o início do ano de 2020 que o mundo inteiro está focado na gestão do risco pandémico, como salvar vidas humanas, como não permitir que os serviços nacionais de saúde entrem em colapso, como prevenir surtos e como criar e implementar planos de recuperação económica que respondam com eficácia ao impacto que os confinamentos decretados pelos governos estão a ter nas economias mundiais.

Contudo, não nos podemos esquecer que para além da crise económica, social e pandémica, estamos também perante uma crise ambiental. A economia mundial consome anualmente mais do que os seus recursos permitem e assistimos, ano após ano, a mais notícias sobre fenómenos da natureza catastróficos em todas as regiões do mundo, com cada vez mais perdas económicas e perdas seguras.

Em 2020, de acordo com a Munich Re, o mundo registou 980 fenómenos da natureza de dimensão catastrófica (860 em 2019), com perdas económicas de 210.000 milhões de dólares e 8200 perdas humanas. A temperatura no oceano Ártico continua a aumentar, bateu-se um novo recorde no número de furacões que assolaram o continente americano e na China as inundações causaram perdas económicas de 17.000 milhões de dólares. Neste contexto catastrófico, porém, as perdas seguras representam apenas 40% das perdas económicas, o que evidencia um protection gap enorme.

Os países que têm taxas de penetração de seguros mais elevadas, são os países que recuperam mais rapidamente deste tipo de eventos, para além de que estão também mais orientados para a gestão do risco e, em consequência, mais propensos a investir para prevenir e não apenas para recuperar.

O acordo de Paris assinado em 2015 tem como objetivo principal limitar o aumento da temperatura média global a níveis abaixo dos 2º e garantir que com a descarbonização das economias mundiais se reduza o risco e o impacto das alterações climáticas. No entanto, de acordo com a Munich Re, em 2020 a temperatura média excedeu 1,2º quando comparada com a temperatura dos anos pré-industriais (1880-1900), o segundo pior ano de sempre (depois de 2016).

O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. Como diz o Papa Francisco na encíclica Laudato Si, a noção de bem comum engloba também as gerações futuras, a terra que recebemos pertence também aqueles que hão de vir.

Relembro que neste ano (2021) celebra-se 10 anos que ocorreu o tremor de terra e o tsunami no Japão, causando a perda de 18.000 vidas humanas, perdas económicas de 210.000 milhões de dólares e perdas seguras de 35.000 milhões de dólares. De acordo com a Swiss Re, tratou-se do sinistro mais caro pago pela indústria seguradora e resseguradora, mesmo cobrindo apenas 16% das perdas económicas. Não nos esqueçamos que, no Japão, a qualidade de construção antissísmica é muito elevada e que têm um programa de prevenção e de mitigação do risco a funcionar há muitos anos.

E em Portugal, como é que a sociedade civil e os Portugueses percecionam o risco sísmico? Não sendo comum as pessoas sentirem estes eventos com frequência, como acontece noutras partes do globo, vamos ficar à espera que um tremor de terra de grande dimensão ocorra em Portugal para agirmos? Lisboa é, a seguir a Istambul, a cidade na Europa com maior risco sísmico. Como é que os Portugueses percecionam este risco? Atualmente, as Pessoas estão muito mais disponíveis para adquirir um novo telemóvel de última geração do que comprar uma apólice de seguro que proteja o seu património, a si e às suas Famílias. Como mudar esta perceção e alteração de comportamento por parte das Pessoas?

A principal medida continua a ser apostar numa maior literacia financeira, contribuir para uma sociedade mais atenta e alerta à gestão dos riscos e mais exigente na criação de medidas de prevenção.

A taxa de penetração em Portugal do risco sísmico é baixa, só cerca de 15% das habitações têm uma apólice de Incêndio com a cobertura de fenómenos sísmicos. Deste modo, se ocorresse em Portugal um sismo equivalente ao que assistimos em 1969, utilizando os dados do Grupo Ageas Portugal, extrapolando para o mercado total e utilizando um dos modelos comerciais existentes no mercado que nos permitem avaliar o impacto do risco sísmico, estaríamos a falar de perdas económicas em habitações de cerca de 7700 milhões de euros. Se adicionarmos as perdas indiretas que existiriam na reabilitação de infraestruturas, na reconstrução de edifícios públicos como hospitais, escolas, no aumento do custo dos materiais e da mão-de-obra, teríamos um impacto no intervalo de 5% a 10% do PIB nacional. Mais: considerando a exposição da carteira dos Bancos ao mercado imobiliário, existe ainda um sério risco sistémico que poderia voltar a abalar o nosso sistema financeiro, apesar dessas carteiras, em parte estarem seguras.

Quanto à oferta de proteção, e porque o mercado pode ter limitações de capacidade para determinados riscos, devem equacionar-se soluções de resiliência partilhada, requerendo um trabalho multidisciplinar e de cooperação entre o poder político, a comunidade científica, o setor segurador e ressegurador, as associações setoriais e os órgãos de supervisão. Todos estes intervenientes devem promover uma discussão mais alargada do tema, de forma a passarmos de uma vontade e de um desejo para a sua implementação na prática.

É nesta perspetiva que se pode enquadrar a proposta que a Associação Portuguesa de Seguradores apresentou em 2018 para a criação de um sistema de proteção de riscos catastróficos, envolvendo, numa primeira linha, uma solução para a cobertura alargada do risco sísmico em Portugal, prevendo a transferência de risco por camadas (segurados, seguradores, resseguradores e Estado como ressegurador de última instância) e a acumulação de um fundo que venha permitir aumentar a capacidade do sistema nacional e diminuir as necessidades dos diversos intervenientes no longo prazo.

Concluo, reforçando a mensagem de que a indústria seguradora e resseguradora tem demonstrado a sua solidez ao longo de décadas, enfrentando acontecimentos de índole natural de magnitude alarmante (como o tsunami no Japão citado acima em 2011), desastres man made (torres gémeas em 2001), crises económicas e financeiras de dimensão elevada (2008), crises humanitárias à escala global (pandemia atual), estando apta a dar a sua colaboração para fazer de Portugal um país mais resiliente.

José Leão, Head of Reinsurance do Grupo Ageas Portugal, presidente da Comissão Técnica de Riscos Catastróficos da Associação Portuguesa de Seguradores

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