Os rostos da abstenção

Diariamente, a nossa vontade define, de uma forma ou de outra, o nosso quotidiano e, por vezes, também o dos nossos compatriotas. A evidência surge despercebida na resiliência de qualquer vida, sendo o nosso estado uma consequência de toda a decisão. Por mero exercício do arbítrio decidi pensar na abstenção e procurar visitá-la num exercício de interpretação.

Tirando os olhos de sufragistas e tamanhas conquistas, atentamos que apenas as singelas e singulares linha iniciais dos discursos de vitória ou de derrota de todos os candidatos mencionam os abstencionistas, num mero protelar de protocolo. A pesquisa por conformistas é inglória, pois pouca tinta escorre pela inércia. Sigam-se então as pistas de realidades nada simplistas, numa romagem por os que não assumem um rumo.

Nesta extensa fauna eleitoral em Portugal, começamos pelo abstencionista intelectual. O sujeito que percebe de política, e até a comenta, mas que confrontado com a pergunta de qualquer interlocutor já sabe se vai votar? - algo também estranho de ouvir, afirma numa resposta nada abonatória que extrapola a retórica - "provavelmente não irei". A sapiência não revela racionalidade de quem compreende a lógica do contrato social e que, certamente, se distancia da anarquia ou de um regime ditatorial.

Mais à frente está o abstencionista preocupado, um ponderado que não se sente preparado. Acredita que não tem literacia política suficiente para entrar no mundo político, esquecendo que faz parte dele como todos. Indica alguma consciência de não querer tomar uma má decisão e recorda a pertinência do voto informado, porém opta por uma omissão negligente.

Pelo caminho, encontramos também o convicto moralista, senhor das hipocrisias. No estabelecimento em que se estabelece, espelha as suas certezas, que ingeriu de um livro chamado mil folhas. "São todos uns lerdas!" - diz o diligente que expressa à pressa tudo o que sente. Se a abstenção se chamasse desleixo, talvez votasse em branco, nesse eixo que tem menos mal e que deveria ter mais significado.

No nosso deambular pela soberania popular, encontramos igualmente o abstencionista forçado, de voto dificultado. No estrangeiro desconsolado pela distância do seu consulado, embrenhado em burocracias crónicas, num procedimento anacrónico de tantos ónus. Acrescenta-se o bónus que nada nos bonifica neste inverno, é o cidadão enclausurado que vê congelado o seu direito fundamental, por uma abordagem pouco constitucional.

Por fim, o abstencionista da fava, que traz azar, por optar por um comportamento vegetal, proclamando "favas contadas" antes das vontades serem todas contabilizadas. É o rei de um bolo que não consegue degustar e que favorece o utensílio que o procura rapar.

Damos assim alguns rostos a muitos números diabólicos que Gil Vicente embarcaria devidamente. A política não é o hobby de alguns, é a realidade de todos. Hoje, confinados na realidade que nos assombra, sentimos que vivemos isolados. Contudo, é mesmo no meio desta situação pandémica que nos relembramos que estamos integrados numa comunidade, onde acatamos decisões daqueles que nos governam, aqueles que também por fruto das nossas decisões ocupam determinadas funções, dando seguimento à Democracia Indireta.

Essa mesma Democracia não se consolida apenas com uma menor taxa de abstenção, não é esta a salvação se corresponder a uma grande polarização da sociedade ou a um exercício irresponsável de uma responsabilidade. O voto informado e a cidadania ativa, resultado de uma grande ponderação em informação isenta, é dos maiores usos que podemos dar à nossa massa cinzenta.

É tempo da maioria silenciosa se fazer ouvir, numa sociedade que necessita de uma nova mentalidade ao encarar a participação cívica e num processo que se tem que renovar, fazendo face a um flagelo que é apenas parte de um extenso novelo.

Eu abstenho-me... de me abster.

Digo presente, pelo nosso futuro!

Francisco Cordeiro de Araújo, fundador do projeto Os 230

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