Os setores ditos tradicionais, no mundo digital

Muito se tem discutido sobre a oportunidade de transformação que a pandemia da covid-19 trouxe às organizações. Na área das tecnologias, todos falam da aceleração digital e do "salto tecnológico de 10 anos". As empresas, com os seus escritórios fechados, tiveram, obrigatoriamente, de se reorganizar. O teletrabalho generalizou-se, modernizaram-se e automatizaram-se processos, reinventaram-se modelos de negócio. Vivemos o "hype" do Digital e da "hiperaceleração", que ganhou ainda maior preponderância na interação do consumidor com serviços e produtos, num período de isolamento social. Os consumidores e clientes adaptaram-se a novos modelos relacionais e transacionais com as organizações. Poderemos, portanto, afirmar que o confinamento ajudou o mundo organizacional a evoluir?

A verdade é que nem todos os setores seguem o mesmo ritmo de evolução. Muitos dos setores ditos tradicionais sofreram grandes dificuldades neste período, devido à fraca exposição ao contexto digital e/ou pouca digitalização dos seus modelos de negócio, provocando assim o encerramento de vários negócios e, consequentemente, a perda de inúmeros postos de trabalho.

A título exemplificativo, se olharmos para o setor do calçado, por exemplo, verificamos que o contexto pandémico provocou, por todo o mundo, o cancelamento de inúmeras feiras, prejudicando gravemente toda a indústria. Segundo a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), aproximadamente 70% do setor esteve parado e as exportações diminuíram em 20%, o que resultou num decréscimo de 60 milhões de euros face ao ano anterior. Apesar de tudo, as marcas deste setor já apresentavam os seus produtos no digital, com serviços de comércio online e entrega ao domicílio. Ainda assim, essa presença digital não foi suficiente para suportar uma indústria que exporta mais de 95% da sua produção para 163 países. Estes dados colocam-me a seguinte questão, para reflexão: Porque continuam, as feiras de calçado, a representar tamanha influência no setor, em plena era da "Transformação Digital"?

Outro exemplo, é o setor livreiro que, apesar de ser um dos setores tradicionais que mais rapidamente se adaptou ao digital - através de distribuidoras como a Fnac, livrarias exclusivamente digitais como a Wook, ou plataformas comerciais globais como a Amazon - registou prejuízo de, aproximadamente, 35 milhões de euros desde o início da pandemia. Neste sentido, coloca-se novamente a questão: Continuarão as "Feiras do Livro" e eventos similares, a ser fundamentais para a sustentabilidade do setor? A Rede de Livros Independentes (RELI) afirma que tanto as livrarias como as feiras de livros são encaradas como um ponto de encontro, proximidade e humanização entre autores, livros e clientes.

Por fim, olhemos ainda para a indústria têxtil. A Associação Têxtil e Vestuário de Portugal refere que, durante o confinamento, o setor registou quebras de 18% da sua produção e 14% no volume de negócio, que resultaram na perda de 5000 empregos. Apesar dos esforços para potenciar o e-commerce e do crescimento digital de muitas marcas, com aposta em novos canais e estratégias de Marketing, como o Influence Marketing, tal estratégia ainda não se revelou suficiente para enfrentar um cenário de encerramento de lojas/retalho. Quererá isto dizer que as grandes superfícies comerciais continuam a ser indispensáveis ao setor?

É fundamental, numa era onde tanto se fala de tecnologias de informação, transformação digital, e-commerce, entre outros temas, que as empresas dos setores mais tradicionais continuem a sua jornada de transformação, adaptando os seus métodos, modelos operacionais e de negócio, ao novo contexto, exigências do mercado e do consumidor. Ainda há muito trabalho pela frente. Já todos percebemos que "novo normal" será pouco "normal", por comparação ao período pré-pandemia. Cada vez mais, viveremos num regime híbrido, onde o digital irá desempenhar o papel principal, tanto para as empresas como para os consumidores.

Estaremos, realmente, preparados?

Ricardo Rocha, Diretor de Marketing da Noesis

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