Os sindicatos  ficaram sozinhos

Milhares de pessoas despedidas na banca, centenas de famílias a receber avisos de corte de serviços essenciais, cada vez mais pequenos negócios a fechar, incapazes de sobreviver a confinamentos e restrições sem fim à vista e com subsídios anémicos e tardios (quando chegam). É este o retrato de muitos portugueses. Pouco nos chega, porém, em imagens, relatos ou notícias. Mesmo que os sindicatos se mantenham ativos e as greves, manifestações e ações de luta tenham ganho escala e número nos últimos tempos. A pandemia domina a atualidade e os partidos acreditam que opor-se a quem decide não lhes trará nada de bom enquanto essa luta maior existir. A verdade é que, com a vacinação avançada como está e os números de contágios e casos graves a amaciar, com a bazuca decidida e os apoios imediatos distribuídos, essa centralidade já há muito que deixou de fazer sentido.

Ainda assim, a contestação deixou de ter eco político. Entretida que está entre a promoção dos seus candidatos autárquicos e a negociação dos rebuçados que António Costa se digne a lançar no próximo Orçamento do Estado, a oposição não dá ouvidos, nem voz aos que lhe dão votos. E nem a esquerda mais ou menos radical, tradicionalmente sensível a estes temas, escapa, afinando pelo diapasão do PRR e dos fundos europeus, no máximo tocando o eterno salário mínimo. Nem Jerónimo de Sousa no tradicional discurso do Avante! lhes valeu, ficando-se pelas questões macro: as acusações de propaganda e de escolhas desapropriadas na aplicação do plano de recuperação ao governo cuja estabilidade parlamentar ajuda a garantir. Os bancários vão sair à rua juntos pela primeira vez na história, os trabalhadores dos transportes manifestam-se, os funcionários dos portos fazem greve... mas o Bloco de Esquerda opta por juntar-se e amplificar o protesto dos brasileiros contra o presidente deles. Há setores inteiros da economia que ainda não conseguiram retomar a atividade, há famílias sem rendimentos há meses, à espera do sucessor do subsídio social de desemprego, mas a esquerda está a olhar para a bazuca.

E a direita, naturalmente, afastada que está dos planos de Costa - que apesar de não a ter governa como se tivesse maioria absoluta - segue na luta para fazer das próximas autárquicas uma desgraça um bocadinho menor que as últimas eleições.

Sem eco nem interesse político, os sindicatos ficaram a falar sozinhos. Podiam bem tornar efetivo o corte do cordão umbilical com os partidos e fazer prova de vida, tornando-se, enfim, entidades construtivas que verdadeiramente ajudam a negociar e criar condições para os que representam ao lado das empresas. Seria um serviço que prestavam aos trabalhadores e ao país.

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