Opinião: Alberto Castro

Os tempos mudam

Fotografia: Wu Hpng/EPA
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Se o homem for capaz de perceber as tarefas em que a máquina é melhor e a souber usar nas situações certas, pode conseguir resultados extraordinários

Em 1997, pela primeira vez, um computador conseguiu ganhar um torneio ao, então, campeão do mundo de xadrez. Deep Blue e Kasparov foram os protagonistas. Deep Blue era um computador desenvolvido para o efeito que perdera, um ano antes, um torneio semelhante. Subsiste alguma polémica quanto à lisura das práticas da IBM, na ocasião. Pelo contrário, não há dúvidas nenhumas de que, hoje, um computador banal, dotado de um simulador razoável, venceria, facilmente, qualquer jogador de xadrez, por melhor que este seja. Por isso, nunca mais se viu esse desafio ser repetido. A máquina havia vencido a inteligência humana.

Talvez. Ainda no xadrez há algumas experiências pertinentes para se entender os limites, e as condições, da afirmação anterior. Num dos casos, num torneio de “estilo livre”, em que podem jogar máquinas, pessoas e pessoas e máquinas, a equipa vencedora era constituída por dois jogadores, curiosamente, dois amadores, auxiliados por três computadores normais. A sua capacidade e habilidade de usar os computadores, na forma e nas circunstâncias apropriadas, fez a diferença.

A lição parece óbvia: se o homem for capaz de perceber as tarefas em que a máquina é indubitavelmente melhor e a souber usar nas situações certas, pode conseguir resultados extraordinários.

É mais fácil de dizer do que fazer. Como quase sempre, o desafio passa pela educação e pela formação. Além das competências técnicas, é importante a capacidade de questionar, de equacionar o problema, de o contextualizar, de perceber como as partes interagem na procura de uma solução melhor. Os diplomados em Filosofia ou os matemáticos puros são tão importantes quanto os programadores. A especialização é um equívoco.

Aos da minha geração, custa-nos perceber que os nossos netos tenham uma caligrafia horrível e sejam tão maus a cálculo mental. Se calhar, são competências que pouca utilidade lhes trarão. Assim eles sejam capazes de aperfeiçoar outras, muitas no âmbito das humanidades, que, essas sim, serão essenciais para vencerem os desafios do futuro.
Alberto Castro, economista e professor universitário

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