Otimismo com realismo para ganhar a fatia de Leão 

É bom ver o copo meio cheio e ter uma atitude positiva perante desafios que se agigantam à nossa frente. Contudo, o ministro das Finanças, João Leão, poderá ter tido uma excessiva dose de otimismo quando, nesta semana, apresentou as previsões de crescimento e o Pacto de Estabilidade.

O Conselho de Finanças Públicas é da mesma opinião: ataca a previsão de investimento do governo no seu parecer sobre o mesmo Pacto. Considera que não foram identificados os projetos que vão conseguir alavancar os montantes de investimentos apontados para este ano; mais: aponta que falta prudência na antevisão partilhada pelo mesmo governante. A entidade acrescenta que há problemas sérios na previsão realizada para o crescimento desse mesmo investimento e considera-o demasiado otimista.

Prudência é a palavra-chave para enfrentar este e os próximos anos, porque face ao ziguezaguear da evolução da pandemia, qualquer bola de cristal é falível. Também a antevisão acerca do défice público (4,5% em 2021) pode pecar por excesso de confiança. O CFP apresenta reservas quanto ao tema. Numa conjuntura como esta - em que aumenta fortemente a despesa pública, mas encolhe a receita -, o equilíbrio dos dois pratos da balança torna-se um exercício complicado e, por vezes, impossível.

A pandemia coloca-nos perante um momento de elevado risco e incerteza, que tem de ser tido em conta nas diversas variáveis. A evolução da covid-19 e o sucesso ou o insucesso dos planos de vacinação em Portugal, na Europa e no mundo têm implicações diretas e indiretas na performance desta pequena economia aberta que é Portugal.

Apesar de o país ter avançado para a terceira fase de desconfinamento (ainda que em 11 concelhos o primeiro-ministro tenha usado o travão de mão), a economia permanece ligada aos cuidados intensivos. Por exemplo, o turismo vai sofrer ainda um forte impacto até ao final do ano. É por isso difícil compreender como são depositadas expectativas de forte contributo desta área de atividade para as contas de 2021. Também aqui o CFP avisa para os riscos negativos, em parte devido ao atraso na imunização.

O ministro das Finanças aponta para uma retoma do PIB de 4% neste ano e de 4,9% em 2022. É certo que a base (de 2020) é baixa, mas os agentes económicos temem que não se alcancem tais metas publicamente verbalizadas.
Mesmo com o impulso do consumo privado de bens e serviços, com os investimentos em obras públicas prometidos e com algumas exportações contabilizadas por via do escasso turismo, não vai ser fácil ganhar esta fatia de Leão.

Para aumentar a complexidade do desafio de chegar mais longe e mais rápido, é preciso juntar o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Mas é importante lembrar que o PRR ainda não foi aprovado. Está em negociação em Bruxelas e a versão final parece estar longe de estar no ponto de ser submetida ao Conselho da União Europeia.

Otimismo? Sim, é preciso. Mas sempre com uma boa dose de realismo.

Jornalista

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