ana rita guerra

Overdose de inovação

A primeira semana de Janeiro não serve apenas para encher os ginásios e os sites de encontros, que têm por estes dias o maior pico do ano.

É uma janela aberta para as inovações tecnológicas que poderemos esperar nos próximos doze meses, alardeadas com sofreguidão durante o CES em Las Vegas – um dos maiores eventos do sector da electrónica de consumo.

As grandes marcas, como a Samsung e a LG, aproveitam para mostrar aqui tudo o que se liga à eletricidade, desde ferros de engomar a frigoríficos inteligentes, televisões, tablets e smartphones.

E as startups acotovelam-se para mostrar as suas invenções, em muitos casos bizarras. Não é por acaso que apenas uma pequena percentagem (diz-se que são 10%) conseguirá ter sucesso, é a natureza da inovação. Em Las Vegas, talvez seja morte por overdose.

Este é o problema: são 3600 empresas a tentarem agarrar a atenção de clientes, parceiros, analistas, investidores e jornalistas [antes sequer de chegar ao CES, recebi cerca de 700 emails com propostas, demos e comunicados de imprensa].

A tortura dura seis dias, dois para a imprensa e quatro de exposição. O mercado é bombardeado com produtos que ainda não saíram e adivinha-se que talvez nunca cheguem a sair. É preciso investimento, logística e aceitação por parte dos consumidores; nenhum destes está inteiramente garantido para muitas destas empresas.

Há ideias muito interessantes, mas que se perderão na loucura dos milhares de comunicados e na cobertura frenética dos meios de comunicação. A síndrome FOMO (Fear Of Missing Out) é real: a cada esquina parece haver um produto mais interessante que o anterior, e não dá para ver todos – mesmo que quisesse, são 165 mil pessoas e a qualquer momento parece que escolheram todas o mesmo corredor.

Alguns veteranos da indústria decidiram pôr termo a esta loucura e deixaram de participar no CES. A Apple nunca o fez, e até há alguns anos lambuzava-se de manchetes ao lançar grandes produtos no MacWorld durante a mesma semana, quando Steve Jobs ainda era vivo (foi o caso do iPhone, do MacBook Air e do iPad). A Microsoft deitou a toalha ao chão em 2012, quando o então CEO Steve Ballmer fez a apresentação de arranque pela última vez.

As ausências são notórias, mas o evento tem continuado a crescer. Principalmente porque é aqui que se lançam os grandes temas tecnológicos do ano no sector da electrónica de consumo: no ano passado foram as televisões 4K UHD, a realidade virtual e os drones; este ano há um número anormal de robôs, várias construtoras automóveis a apresentarem projectos de carros autónomos, inteligência artificial, mais realidade virtual e realidade aumentada. Os wearables continuam em grande, apesar de se manter a questão: são mesmo necessários? Práticos? Aparentemente, a taxa de desistência (pessoas que acabam por deixar de usar) é bastante elevada.

E haverá com certeza muitos gadgets estranhos – é isso que torna o CES interessante, caótico e cheio de energia. Uma espécie de Silicon Valley com esteróides, que a partir de hoje começa a mostrar o futuro.

Jornalista, vive em Los Angeles

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