Opinião

Pandemia? Inteligência urbana

Fotografia_Almeida Henriques

Tomar a democracia e o desenvolvimento humano que ela visa como dados adquiridos é quase tão perigoso como recusá-los.

Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio /E livres habitamos a substância do tempo”
Sophia de Mello Breyner Andresen

Conquistámos a liberdade há 46 anos – e essa história é, com todas as suas contradições e frustrações, feliz e de progresso: nos direitos, liberdades e garantias; na formação do Estado Social e do Serviço Nacional de Saúde (para todos); na abertura ao mundo e à construção europeia; na constituição do Poder Local democrático e autónomo.

É desta conquista – nascida de uma madrugada que esperávamos – que parto para uma reflexão sobre o papel do Poder Local, das cidades e dos territórios na crise que vivemos.

Nos últimos 44 anos, o Poder Local foi um protagonista no salto de qualidade de vida, bem-estar e mobilidade social extraordinário que o país realizou. Na redução de assimetrias de desenvolvimento; na quase cobertura integral de saneamento e água pública; em melhores escolas, infraestruturas desportivas e equipamentos culturais. E no “deve & haver” dos fundos comunitários, o saldo é expressivamente positivo.

Hoje, sem esquecermos as necessidades infraestruturais que precisamos ainda de satisfazer, coloca-se um repto incontornável aos municípios e às cidades: desenvolver “políticas de terceira geração”.

Ganham aqui importância a captação de investimento qualificado e a criação de talento; a valorização da economia local, agroalimentar e industrial; o fomento da criação e programação cultural; a organização e promoção dos territórios enquanto destinos turísticos sustentáveis; a eficiência ambiental, a salvaguarda dos recursos naturais e a redução da pegada carbónica; a promoção da atividade física e da saúde ao longo da vida – do nascimento ao envelhecimento ativo.

Estes novos desafios – mais centrados na pessoa do que nas infraestruturas – obrigam a uma nova inteligência e a novas competências humanas e tecnológicas.

Em Viseu, nos últimos anos, temos vindo a promover a sensibilização para uma “inteligência urbana”. Uma inteligência que visa assegurar melhores níveis de desempenho coletivo e de liberdade de realização individual, a um menor preço, ou com menos recursos naturais e energéticos.

As tecnologias da comunicação, os big e open data, a gestão participada e a partilha colaborativa dessa informação são as peças-chave dessa nova inteligência coletiva.

A mobilidade coletiva urbana, a recolha de resíduos e o teletrabalho são exemplos onde a tecnologia e a informação podem ser verdadeiramente revolucionárias.

Hoje, vemo-nos confrontados com uma pandemia que obriga não apenas a uma nova racionalidade, mas também à gestão à distância e a promover a economia e a cultura digital.

Estamos a fazer essa transição e adaptação à pressa, sem o melhor planeamento e os melhores recursos, mas nada impede (pelo contrário) que se estabeleçam estratégias nacionais e regionais neste sentido.

Talvez já tenhamos desmistificado a ideia “futurista” das smart cities, mas a verdade é que esse caminho está por fazer, que as políticas públicas estão atrasadas e que os financiamentos comunitários não se reorientaram.

A inexistência de uma cobertura de fibra ótica que chegue a todo o País (como a rede elétrica), uma cobertura GSM que satisfaça ou, numa grande parcela do território, que exista minimamente, são lacunas gritantes por cobrir neste horizonte.

Tomar consciência desta realidade a partir de Lisboa causa estupefação, mas é preciso vencer a inércia. Ideias simples como apresentei para um “Portugal digital 100%” ou um sistema de “roaming interno” nas redes GSM seriam um trampolim de qualidade de vida, coesão e competitividade territoriais.

A madrugada de que fala a poeta não está completa. Nem o dia inicial está inteiro e limpo. Ainda há noite e silêncio.

Tomar a democracia e o desenvolvimento humano que ela visa como dados adquiridos é quase tão perigoso como recusá-los.

Hoje, pede-se que interpretemos o nosso presente e antecipemos o futuro que desejamos.

António Almeida Henriques é presidente da Câmara Municipal de Viseu e da Secção das Smart Cities da ANMP

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