Opinião

Pandemia: Últimos a entrar, últimos a recuperar

Fotografia: D.R.
Fotografia: D.R.

O conhecido critério contabilístico FIFO (first in, first out) parece aplicar-se também aos efeitos da pandemia. Na verdade os primeiros países a sofrer-lhes as consequências, a China e os países asiáticos, são também os que mais cedo puderam recuperar e relançar com vigor as respetivas economias. Pelo contrário os países que mais tarde foram atingidos como o Brasil e os Estados Unidos serão dos últimos a voltar ao normal. A tentativa de reabrir mais cedo, como Trump fez, leva apenas à ressurgência de novos surtos graves e o aumento do custo em vidas humanas.

Esta realidade parece paradoxal porque se esperaria que os últimos a ser atingidos pudessem ter aprendido com a experiência das primeiras vítimas e estivessem melhor preparados para a enfrentar. Infelizmente não aconteceu assim. A experiência chinesa e asiática foi descartada e a Europa só acordou depois do desastre italiano e apenas para o replicar por grande parte do continente – na Espanha, no Reino Unido, na Suécia, na Bélgica, na França – mas também para o imitar ainda que em escala mais pequena na Alemanha, em Portugal, na Holanda, etc..

Em termos económicos os resultados seguem na mesma ordem e na mesma magnitude. Vejamos as mais recentes previsões de Junho de 2020 do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A China, primeira e enfrentar a epidemia, país em que a mortalidade foi contida com medidas firmes e eficazes, terá segundo o FMI um crescimento em 2020 de 1% e no próximo ano uma crescimento superior a 8%. A Índia, o outro colosso asiático terá este ano uma quebra de -4,5& e para o ano um crescimento de 6%. O Japão em 2020 teve uma recessão de -5,8% e em 2021 um crescimento de 2,4% insuficiente para recuperar o nível de 2019.

Na Europa a situação é muito pior. A França terá este ano uma quebra de -12,5%, a Itália de -12,8%, o Reino Unido de -10,2%, a Espanha também de -12,8% e a Alemanha de -7,8%. Um desastre. E a recuperarão em 2021 será tímida e incapaz de repor os níveis do ano passado. Assim teremos crescimentos de 7,3% na França, de 6,3% na Espanha, na Itália e no Reino Unido e de 5,4% na Alemanha. Uma recuperação de metade da magnitude da quebra. Desfaz-se, assim, a ideia da recuperação em V. Prevalece a recuperação em U. Se não houver segunda vaga.

Nos Estados Unidos a queda será este ano de -8% e em 2021 o crescimento de apenas 4,5%. O Brasil enfrenta uma quebra de -9,1% e uma subida no próximo ano de apenas 3,6%.

Como se vê os que pior responderam à pandemia são também os que maiores consequências económicas sofrerão e os que mais lentamente recuperam.

Portugal foi dos últimos países a entrar na pandemia e ainda dela não saiu completamente apesar dos esforços do Governo para nos vender uma ideia de normalidade. Será dos mais atingidos com percas do PIB superiores a 10%.

O país que apostou no turismo e nas exportações será duramente atingido na medida em que as economias dos seus parceiros se contraem. Esperam-nos tempos difíceis. Desenganem-se os que optimistamente esperam uma recuperação rápida. Não a terão.

* Jorge Fonseca de Almeida, economista, MBA

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