Para onde olhamos? Como ouvimos? Como lemos?

Se olharmos para as nossas rotinas diárias e fizermos um exercício de memória recuando por exemplo há cinco anos, encontraremos algumas diferenças significativas e algumas certezas constantes. A certeza constante, que aliás a pandemia e o confinamento reforçaram, é um aumento da procura de informação - não só sobre a evolução da doença no país e no mundo, mas também sobre grandes momentos que moldaram os últimos tempos: a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, as presidenciais norte-americanas com a vitória de Biden sobre Trump e as dificuldades da Europa, a começar pelo brexit.

Uma análise mais fina permite perceber como mudou o consumo de media ao longo do dia. De manhã, a rádio e a televisão enfrentam de forma cada vez maior a concorrência do digital. E se é certo que as pessoas continuam a procurar informação nova quando acordam, não é menos verdade que vão pulando cada vez mais entre os mensageiros de notícias hoje disponíveis. Já não se espera que os jornais diários tragam novidades quando os compramos no quiosque - mas algumas das suas reportagens e investigações acabam por ter eco na rádio, na televisão e no digital. O papel dos jornais em papel na marcação da agenda mediática não desapareceu. Se olharmos para os estudos de audiência em Portugal, verificamos que há um aumento do consumo pago das edições digitais, com alguns meios a conseguirem crescimentos significativos no número de assinantes. Constatamos que a rádio deixou de ser monopólio dos velhos aparelhos do carro ou domésticos e é cada vez mais ouvida em streaming através das emissões online dos diversos operadores. E quando olhamos para a televisão e detalhamos os números do seu consumo constatamos que o tempo médio gasto pelos espectadores frente ao ecrã diminuiu de maio do ano passado para maio deste ano. O mais curioso é que este tempo médio de visionamento caiu não só nos canais generalistas, mas também no cabo e no consumo em streaming (que abrange plataformas como a Netflix, gravações diferidas e visionamento do YouTube).

Como estas estatísticas de audiência televisiva refletem apenas o consumo no ecrã de televisão principal, e sabendo que o streaming tem uma percentagem de utilizadores assinalável em dispositivos móveis, a verdade é que falta estudar como o tempo gasto frente aos ecrãs móveis afeta os valores que nos são dados pela audiometria tradicional. A realidade é esta: os padrões de consumo de informação escrita, de rádio e de televisão, nas suas diversas formas, sofreram grandes alterações e essas mudanças estão ainda insuficientemente estudadas. Há países em que estas mudanças estão a ser analisadas ao pormenor. Por cá, ainda não - pelo menos de forma sistemática. Sabemos que o número de assinantes de plataformas de streaming aumentou, com a entrada no mercado de novos players, como a Disney+, mas não exatamente como é feito o seu consumo.

No dia em que as plataformas de streaming tiverem publicidade, como já acontece com os serviços da NBC Universal, HBO+ e Discovery+ nos EUA, de certeza teremos mais e melhor informação. E elas serão, aposto, o próximo veículo de segmentação eficaz de publicidade, com o manancial de dados de que essas plataformas dispõem. Há cinco anos, nada disto existia em Portugal. Agora, o consumo destes canais de streaming já é relevante. E se não estudarmos as mudanças ocorridas teremos todos mais dificuldade em comunicar de forma eficaz.

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