Opinião: Alberto Castro

Para pior já basta assim

Fotografia: Estela Silva/Lusa
Fotografia: Estela Silva/Lusa

O impulso de curto prazo empurra-nos para a mera reabertura, como se tudo, antes, estivesse bem e fosse possível retomar o modo de vida anterior

Comissão Europeia, Presidente da República, Governo, Oposição e Parceiros Sociais todos têm proclamado ser altura de pensar na reconstrução da economia. Não uma qualquer: reconstruir para melhor. O impulso de curto prazo empurra-nos para a mera reabertura, como se tudo, antes, estivesse bem e como se fosse possível retomar o modo de vida anterior. É uma efabulação perigosa que adia medidas estratégicas, reconduzindo tudo a métricas quantitativas, de mais ou menos (muitos) milhões de euros.

Empenhado, e bem (embora nem sempre bem!), em acorrer ao imediato, o Governo pediu ao professor Costa Silva apoio no desenho de uma estratégia que, ao mesmo tempo, estivesse alinhada com as prioridades e condicionalidades anunciadas pela Comissão Europeia. O Governo, contudo, colocou o Estado fora desse exercício ou, pelo menos, assim parece: já se sabe que acabou o 2 (saídas) por 1 (entrada), substituído pelo 1 por 1, a pretexto da necessidade de rejuvenescer a função pública. Chega? O resto está tudo bem? Sai um velho, entra um novo: assunto resolvido? Os velhos, mesmo que ainda sem idade para a reforma, são, também no aparelho de Estado, um problema.

Dou de barato que será em média. Ainda assim, a fixação numa métrica e num registo binário (bem, mal; velho, novo) corporiza uma abordagem primária, nos antípodas do necessário e desejável. O que se quer do Estado? Tiraram-se lições da atividade em tempo de pandemia? Redundâncias, serviços partilháveis, compatibilidade de funções com teletrabalho, competências em falta ou em excesso, quantitativo e qualitativo, viabilidade de tornar permanentes alguns procedimentos simplificados adotados, só para mencionar alguns temas? Por certo, não houve tempo. Li que já há reuniões, envolvendo diversos de serviços, para partilhar experiências e propor alterações. Como deve ser. Nas operações. E na estratégia? Porquê, então, começar pelo 1 por 1? É preciso um aumento de 100%? Ponderou-se o 3 por 2 ou o 4 por 3? As contas eram difíceis? Seria, sempre, começar pelo telhado. Uma precipitação? Ou um mau exemplo?

 

Alberto Castro, economista e professor universitário

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
apple one

Apple One junta vários serviços, chega a Portugal mas com limitações. O que tem

A  90ª edição da Micam, a feira de calçado de Milão, está agendada para os dias 20 a 23 de setembro, com medidas de segurança reforçadas. Fotografia DR

Calçado. Micam arranca este domingo e até há uma nova marca presente

Os ministros da Presidência do Conselho de Ministros, Mariana Vieira da Silva (C), Economia, Pedro Sia Vieira (E) e do Trabalho Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho (D). MANUEL DE ALMEIDA/POOL/LUSA

Portugal é o quarto país da UE onde é mais difícil descolar do mínimo

Para pior já basta assim