Parler. A nova rede social para extremistas

Milo Yiannopoulos, Proud Boys, Joy Villa, QAnon, Dan Bongino, Boogaloo Boys, Laura Loomer. Considerem-se afortunados se não reconhecerem a maioria destes nomes. São exemplos de alguns dois felizes inquilinos da nova rede social Parler, uma alternativa ao Twitter e ao Facebook cuja missão é dar espaço ilimitado ao discurso insano da extrema-direita.

É claro que não é nada disto que a app diz que pretende, mas comunicados de intenções escritos por assessores de marketing na página inicial nunca foram de fiar. "A praça pública do mundo" é a primeira coisa que se lê na página de apresentação da Parler. "Fale livremente e expresse-se abertamente, sem medo de perder a plataforma por causa das suas opiniões", promete a app. "Interaja com pessoas verdadeiras, não bots. A Parler foca-se nas pessoas e na privacidade, e dá-lhe as ferramentas de que precisa para controlar a sua experiência Parler."

A página não tem som, mas quase ouvi um pequeno violino a tocar quando lia esta descrição. A plataforma descreve-se como sendo o principal espaço de discurso livre online, que trata os utilizadores como iguais e segue um padrão ético mais elevado.

Quase cuspi o café quando cheguei a esta parte. Não é raro que pequenas startups comecem com declarações nobres sobre a sua missão e que os fundadores se lancem ao caminho com ideias profundamente idealistas, mesmo que mais tarde o mercado os coma e regurgite antes do pequeno-almoço. Mas não é isso que se passa aqui. Lemos esta descrição e depois entramos na app para descobrir que está pejada de publicações anti-semitas, homofóbicas, racistas, misóginas, negacionistas do Holocausto e da pandemia, mais conspirações sobre fraude inexistente nas eleições, e ainda promoção de conhecidos sites de fake news. A Parler é um mundo ao contrário que deixa a Fox News a um canto.

Os fundadores, John Matze e Jared Thomson, eram programadores relativamente desconhecidos a viver em Las Vegas quando criaram a app, em 2018. A rede manteve-se quase desconhecida até ao Verão de 2020, quando personalidades conservadoras começaram a pedir aos seus seguidores nas redes sociais que abrissem conta na nova "praça pública" virtual. O motivo, diziam, era a "censura" inaceitável das vozes conservadoras pelos ditadores de Silicon Valley. Isto é, os avisos de verificação de factos, as etiquetas sobre conteúdo falso e a suspensão das contas de extremistas que repetidamente infringiram as regras das redes - como o caso recente de Steve Bannon, banido depois de apelar à decapitação do médico Anthony Fauci e do director do FBI Christopher Wray.

Os apelos começaram a funcionar, mas nada tornou o crescimento da Parler tão explosivo como a derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais de 3 de Novembro. Se em Julho a Parler contabilizava 2,8 milhões de utilizadores, nas semanas seguintes à eleição a app disparou para o topo das lojas de aplicações e rapidamente ultrapassou os 8 milhões. Agora, quase um mês após a eleição de Joe Biden, a Parler voltou a desaparecer dos tops da App Store. Mas já está estabelecida como o refúgio dos conservadores que querem poder espalhar todas as mentiras e hipérboles possíveis sem qualquer intervenção nem verificação de factos. Impedidos de espalhar a sua doutrina livremente nas redes sociais de massas, os extremistas encontraram na Parler a sua câmara de eco mais eficaz.

Segundo o co-fundador Matze, há pouca ou nenhuma verificação na plataforma e a ideia é evitar expulsar utilizadores. Tenho ideia de que isso até podia ter funcionado com um par de milhões de pessoas, mas crescer exponencialmente tem um preço que poucos podem pagar.

Literalmente. Há muito pouca informação sobre como é que a Parler foi financiada e como é que dois programadores de Las Vegas conseguirão sustentar uma máquina destas a funcionar, sem o capital e recursos humanos maciços do Facebook e do Twitter. Sabemos que é difícil monetizar redes sociais - perguntem ao Twitter, que anda nisto há 14 anos - e que será necessário um investimento gigante a fundo perdido durante muito tempo para manter o barco à tona de água. De onde vem o dinheiro? E porquê?

No Twitter, o especialista em desinformação Dave Troy publicou uma composição fascinante de tweets em que traça potenciais ligações entre a Parler e a Rússia, que empestou as redes sociais de trolls antes da eleição presidencial de 2016.

Sem uma investigação aprofundada e provas concretas, a especulação vale o que vale. Mas tomem nota: John Matze, co-fundador da Parler, conheceu a sua mulher Alina Mukhutdinova em Maio de 2016, quando ela fazia uma viagem turística nos Estados Unidos. Casaram na Rússia no final de 2017, num edifício do governo de Putin. De regresso aos EUA, no ano seguinte, abriram a Parler, cuja documentação mostra que é detida por Matze e uma entidade chamada NDMASCENDANT LLC. Esta última foi incorporada através da firma de advogados Greenberg Traurig, a anterior firma de Rudy Giuliani. Que, no altura em que a Parler foi criada, estava precisamente numa viagem prolongada pela Rússia.

Ora, tudo isto pode ser uma enorme coincidência e, mesmo que não seja, até ver também não é ilegal. O que é, claramente, é perigoso. Uma rede social sem qualquer limite nem monitorização é um terreno fértil para a conversão de utilizadores normais em extremistas - foi assim que o Daesh radicalizou milhões de pessoas em todo o mundo há seis anos. É também um porto seguro para conspiradores, fanáticos e milícias, que pode resultar, como vimos após a eleição, em violência no mundo real. Para não falar de criminosos, abusadores, pedófilos e toda a corja escorraçada das redes mainstream.

Há que responsabilizar as empresas e não ser tolerantes com os intolerantes. Há um motivo pelo qual são precisos limites. Estabelecê-los é difícil e defendê-los ainda mais, mas é isso que fazemos diariamente como sociedade: os códigos civil e criminal limitam a nossa real gana. O mundo online não pode ser diferente.

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