Perigosos baladeiros

Nas décadas de 60 e 70 do século passado, surgiu o movimento baladeiro, privilegiando a "mensagem", por contraposição ao delicodoce do chamado "nacional-cançonetismo". Contra a censura e a repressão, fez o seu caminho, ganhou apoio e expressão, estando intimamente ligado ao 25 de abril.

Agora a música é outra, mas o fadário parecido. Domina um certo "nacional economicismo", uniformizador e macrocêntrico, por privilegiar a análise macro, emergir (e acabar) no centro e propor receitas únicas. Pode ser liberal (o mercado toma conta do assunto) ou intervencionista (o Estado resolve). Tal como o movimento baladeiro, têm vindo a surgir fragmentos de um discurso novo. Com pouca visibilidade mediática já que emerge fora do centro, aborda temas pouco habituais e, até, incómodos. Não ignorando o papel da "máeconomia" (Miguel Beleza dixit), põe o foco nos sistemas, território, recursos e na microeconomia. Até que, pela reunião da vontade de três economistas do Norte (Freire de Sousa, Guilherme Costa e Rui Moreira), eis que surge um assomo de dar coerência e consistência a esse discurso alternativo. Surge, assim, a Balada da Meia Virtude, título tributário de Agustina e da sua corrosiva e, só aparente, ingénua verve. Ancorada na Região do Norte, embora sem cair no clubismo do jogo de soma nula, a análise não foge a uma releitura da contextualização macro, para se ir declinando no território, nas instituições, nas empresas, nos produtos, nas políticas. Evidencia-se como a qualidade de processos de gestão se pode articular com a complexificação produtiva e a crescente competitividade de empresas, territórios e País, onde tudo, finalmente, desagua. E dá-se a conhecer "algo de novo a Norte", uma potencial base da tão badalada reindustrialização, assim as políticas públicas o reconheçam e lhe deem espaço.

Um contributo cívico exemplar que nos desassossega e incita ao "cruzamento de pensamentos diversos e plurais" que fomente um "cérebro coletivo à escala nacional", base para a mudança, tanto mais imperioso quanto não parece haver empenho político para tal.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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