Política à portuguesa

A novela do procurador europeu é reveladora da lógica dos tentáculos do poder, da velha "cunha" portuguesa, de um comportamento desregrado e impune que não serve a moralidade política nem o país.

O escândalo é este: para procurador europeu, a ministra da Justiça apresentou três candidatos a um júri europeu independente encarregue dessa seleção. O júri decidiu. Ganhou a candidata Ana Carla Almeida. Contudo, Portugal não gostou do resultado e é aqui que começa a clássica "política à portuguesa".

Perante este gravíssimo erro, de um júri desatento e incauto, surge a necessidade impreterível de repor a justiça e a normalidade. Assim, tenta-se reverter a decisão a favor do candidato José Guerra, e como é preciso fundamentar (preciosismos da Europa), envia-se uma carta ao Conselho Europeu, onde seguem os grandes, óbvios e inegáveis argumentos a favor do candidato José Guerra. Quais os argumentos?

1. A sua vasta experiência em casos de fundos europeus (caso UGT);
2. Ter dirigido o maior departamento de investigação criminal;
3. Ser Procurador-Geral Adjunto.

Perante esta atitude tão perentória e com os novos elementos, o Conselho Europeu aceita que o lugar seja para o candidato José Guerra em vez de ser para a candidata que efetivamente ganhou o concurso.
Detalhe: os três argumentos acima mencionados são falsos. Não são gralhas, imprecisões, são falsos.

O problema: o caso tornou-se público. Mas a ministra desvaloriza, alega que desconhecia esses "erros" e prontifica-se a corrigi-los. Contudo a trapalhada segue com o comunicado do Diretor-Geral da Política de Justiça, que contradiz a ministra.

Resultado: o lugar que ele colocou à disposição ficou, obviamente, disponível.

O que não fica disponível é ar puro por estas bandas. Infelizmente a ministra e o primeiro-ministro acham tudo normal. E por certa lógica, até terão razão.

O procurador José Guerra, que já é o Procurador Europeu, é que de lá já não sai. Bingo!

Sócio da CRS Advogados

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