Política económica de Trump?

É impossível prever a política económica de Trump.

Uma das principais características de Donald Trump, demonstrada diariamente durante a campanha, é ele ser um mentiroso. Foram dezenas as vezes que prometeu num comício o oposto do que tinha jurado umas semanas ou mesmo uns meros dias antes. Em várias entrevistas, perguntaram-lhe porque é que ele tinha dito isto ou aquilo e a resposta foi: não, não disse. Numa ocasião, os jornalistas chegaram mesmo a mostrar-lhe o vídeo com as afirmações e ele, sem pestanejar, continuou a dizer que não. Trump mente com uma facilidade impressionante.

Por isso, é impossível prever a política económica que ele vai seguir. Não só ele nunca formou uma equipa séria de conselheiros económicos com ideias formadas e publicadas como raras vezes afirmou algo de concreto. Como Trump não hesita em abandonar promessas, não sobra mesmo nada para comentar. O que se segue neste texto é por isso acima uma mera adivinha.

Primeiro, em termos fiscais, em toda a sua vida, Trump viveu de crédito. Faz parte do setor imobiliário construir com dinheiro emprestado, mas Trump sempre o fez até ao limite, sem receio de ir à falência, o que, aliás, aconteceu em muitas das suas empresas. Juntando-se isto à natureza populista, prevejo que ele vai começar grandes projetos de infraestruturas e ao mesmo oferecer alguns cortes de impostos. O défice público vai disparar e daqui a quatro ou oito anos Trump vai deixar uma enorme dívida para o próximo governo. Paul Krugman e os seus seguidores que vivem obcecados com a austeridade vão ver realizados os seus sonhos; se eles têm razão, a economia americana vai crescer a um ritmo espetacular.

Segundo, em termos monetários, Trump vai ameaçar a independência da Reserva Federal e provavelmente despedir a sua chefe, Janet Yellen, à primeira oportunidade. Não só Trump prefere dar ordens do que respeitar a independência de outros ; como oferecer a cabeça de Yellen lhe vai permitir afirmar que está a castigar os banqueiros. Claro que Yellen é uma funcionária pública, não uma banqueira, porque um banco central não é realmente um banco. Mas a maioria dos eleitores de Trump não ligam a essa distinção, e é mais fácil correr com Yellen do que perseguir judicialmente banqueiros bilionários e as suas equipas de advogados.

Terceiro, em termos de política economia externa, pelos exemplos da campanha, Trump não é nem protecionista nem liberal. Ele é oportunista, por isso vai impor barreiras ao comércio externo quando lhe convém e derrubá-las noutros setores ou tempos que lhe pareçam melhor. A economia pode sofrer a longo prazo com esta discricionariedade, mas Trump vai marcar pontos na opinião pública no curto prazo.

Estes são meros palpites. Pode ser muito pior, até porque mesmo em termos económicos a comparação com o primeiro governo nazi não é desapropriada. Hitler seguiu as três políticas que acabei de descrever. Mas também pode ser bem melhor e Trump acabar por ser um novo Reagan. Com um mentiroso nunca se sabe.

Professor de economia na London School of Economics, em Londres

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