Políticos profissionais... até quando?

Nas últimas décadas quase tudo mudou. Mas, em Portugal, pelo menos uma coisa continua quase igual: os políticos profissionais teimam em querer permanecer, mesmo que, com honrosas exceções, pensem quase exclusivamente na satisfação dos seus interesses pessoais e grupais.

É verdade que a democracia representativa aposta no facto de que todos os cidadãos têm os seus legítimos interesses representados na Assembleia da República no caso do país, e nas Assembleias Municipais no caso dos concelhos, que estariam assim proporcionalmente salvaguardados. Porém, como é claro para todos, só por si, essa garantia não garante coisa nenhuma e continuamos a eleger pessoas que representam muito mais interesses exclusivamente particulares que os da própria população.

Infelizmente, na hora de decidir em quem votar, os eleitores têm menos liberdade do que se pensa. A democracia representativa baseia-se na presunção de que cada um de nós, quando exerce o direito de voto, tem um entendimento claro da sua preferência. Porém, essa presunção teórica é pouco defensável, na prática. E, nessas circunstâncias, pode dizer-se que a nossa democracia se assemelha a uma fraude.

Por um lado, quanto mais tempo um político permanece na política, mais poder acumula, menos ideias tem para cuidar da "coisa pública", e mais vulnerável se torna à corrupção para manter os privilégios e a posição de comando, de poder, de exploração e de "roubalheira" do património público. Assim, se a classe política profissional é, da perspetiva social, uma elite cujo poder tende a aumentar proporcionalmente com o tempo de poder, só por si, a regra de um votante deveria assentar no princípio republicano da alternância política para evitar os malefícios desse poder.

Por outro lado, quanto maior for o peso do orçamento de Estado na riqueza gerada pelo país, no caso do governo central, ou o peso do orçamento camarário na riqueza criada no concelho, no caso do governo municipal, mais condições têm os políticos profissionais para influenciar e fazer prevalecer os seus pontos de vista, porque a vida das pessoas está mais dependente dos recursos públicos. Por conseguinte, a alternância política faz ainda mais sentido nos casos em que os recursos à disposição dos políticos são, para o contexto, mais significativos.

Em suma, na minha opinião, a permanência do político na política é tanto mais perniciosa para os interesses gerais quanto mais tempo de poder possuir e quanto mais recursos à sua disposição tiver. Se, ao votar, somos todos convidados para a festa da democracia, não deixemos que exista um espaço vip, de poder continuado, reservado a alguns, cada vez mais egocêntricos.

Acresce que a opção "não votar" também não é solução. Significa que nos alheamos da política e contribuímos para deixar o palco ocupado pelos políticos profissionais, cada vez com pior carácter, e que, de outro modo, não teriam grandes oportunidades.

Sendo assim, pode dizer-se que a culpa da trajetória de desenvolvimento do nosso país e do nosso concelho é dos respetivos políticos? Em parte, sim. Mas numa outra parte, nada negligenciável, a culpa é de todos nós, afinal somos nós que elegemos os políticos e é a nós que nos cabe escrutinar a sua ação. Se não podemos influenciar o passado, para futuro devemos ter sempre presente que o voto deve criar condições para que sejam os melhores a cuidar da "coisa pública".

Óscar Afonso, presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF) e professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto

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