Por favor, não levem a mal

Como já era previsível, 2023 será mais um dos anni horribiles que têm assolado o nosso século. Em termos económicos e financeiros talvez venha a ser o pior. A culpa é do Putin? Ele não é lá muito bom rapaz, de facto. Terá de responder pela guerra injusta e criminosa que impôs à Ucrânia, sem dúvida. Mas, foi ele que elevou ao histerismo as medidas anti-pandémicas? Foi ele que tentou camuflar as respetivas consequências imprimindo dinheiro a rodos, literalmente, como se não houvesse amanhã? Foi ele que entrou numa espiral de sanções contra si mesmo, que levaram à solidificação do bloco russo-chinês e tiveram um efeito bumerangue devastador na Europa?

Independentemente das respostas, as perspetivas são claras quanto à falência do assistencialismo do estado-nação e sua transição para o assistencialismo europeu (ou mesmo global). Ambos socialistas, o primeiro viveu da dívida, o segundo viverá da dependência que, entretanto, gerou. E da resiliência, claro, já cá faltava. Afinal, o que é ser resiliente senão aceitar com orelhas de burro e sorriso de mula todas as medidas draconianas impostas por organismos internacionais, cujos representantes jamais foram eleitos pelo povo?

A queda abrupta que se adivinha na economia alemã significará, não apenas uma crise para toda a Europa, mas o fim do estado-nação assistencialista (ou do que restava dele) enquanto modelo. Contudo, nem todos querem seguir este rumo. Por um lado, temos os países do leste europeu que insistem em ser soberanos. Por outro, temos o curioso caso do Reino Unido.

Ao contrário dos países do Leste, o Reino Unido alinha no novo modelo económico global (ou, pelo menos, ocidental). O novo rei, Carlos III, é dos principais promotores do Great Reset e até Boris Jonhson enchia a boca com o BBB (Build Back Better). Porém, contrariando igualmente a Alemanha, o Reino Unido não quer fundir-se misticamente no global-socialismo que nos espera. Quer estar acima dele, que é onde se vive melhor. Por isso, pretende impor uma taxa sobre o carbono, mas só para as importações. E mesmo que algum dia venha a impô-la às empresas e consumidores (além da que já existe sobre o petróleo e indústria pesada) arranjará forma de a compensar ou de a fazer à sua maneira. Sempre com um sim e um não, com um pé dentro e outro fora.

O Brexit foi um passo decisivo e, sobretudo, coerente com a idiossincrasia britânica. Além disso, era previsível. Até parte dos trabalhistas o apoiaram. O partido anda dividido. Não ganha uma eleição geral desde 2005. Quanto aos conservadores, têm vindo a fazer jus ao seu nome com o passar dos anos. Mas, o que conservar, tendo em conta o cenário atual? A recente escolha de Liz Truss para líder do partido, e substituta de Boris Jonhson no cargo de Primeira-Ministra do Reino Unido, diz muito sobre esta questão.

Havia duas opções que representavam caminhos distintos, ainda que dentro do mesmo projeto pós-Brexit. De um lado, os conservadores ingleses tinham Rishi Sunak, uma figura de reconhecida competência técnica, em parte adquirida na Goldman Sachs e posta em prática enquanto foi Chanceler do Tesouro, no governo de Johnson. Poucos como ele saberiam aumentar a eficiência do Estado. Trata-se de um excelente merceeiro. Gosta de contas certas, otimizar os recursos e fazer mais com menos. No entanto, do outro lado, estava uma promessa com traços politico-ideológicos bastante mais vincados, o que se relevou sobretudo quando o debate resvalou para o tema dos impostos. As pitadas de libertarianismo com que Truss apimentou o seu discurso, bem como a prioridade que deu aos negócios, às empresas e à classe média, valeram-lhe o apoio das bases.

Claro está que não faltaram comentadores de esplanada a dizer que Sunak não fora eleito por motivos raciais. Mas, se há país no mundo autenticamente diverso, nos dias que correm, é o Reino Unido. Não faltam ministros e presidentes de câmara de todas as cores. Aliás, o próprio Sunak foi Chanceler do Tesouro e quem agora detém o cargo é Kwasi Kwarteng.

O que os conservadores querem, bem como a maioria dos ingleses (a ver pela confiança que neles depositam), é um Estado limitado internamente, no que respeita regulações e impostos - mercado livre, autonomia dos indivíduos, famílias e empresas face ao Leviatã. Já externamente, pretendem que a soberania da coroa e do governo os defenda da utopia globalista, imposta de cima por organismos supra-estatais, à margem da democracia. Em particular, quando em causa estão normas europeias ou internacionais que prejudicam os seus negócios e estilo de vida. Todavia, pouco se importam com o socialismo dos outros. Até acham bem e promovem. Querem reiniciar a economia? Força nisso. Querem reconstruir tudo de novo? Nós até damos um empurrãozinho, dizem (ou, se não dizem, pensam). Agora, cá na UK é que não. O Reino Unido é outra história. Globaliza, não é globalizado. Tem o mundo como mercado e Londres como capital financeira de referência. Esta é a idiossincrasia britânica. Fora, tudo é admissível. Dentro, nada é aplicável. E por favor, não levem a mal: business is business.

Economista e investidor

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