Porque falham as startups

Há todo um ecossistema virado para o empreendedorismo que suporta e alimenta a criação de startups, a profissão de "fazedor" e a ambição de transformar ideias em unicórnios com histórias a roçar a mitologia. Há livros, blogues, podcasts, TED Talks e mentores que galvanizam empreendedores em potência, num sistema de porta giratória que ultimamente tem rodado mais depressa.

Mas no meio de tantas dicas sobre como fundar uma startup e fazê-la crescer há algo em falta: as histórias de falhanços épicos, os seus motivos e as lições a retirar deles.

Isto é uma lacuna ainda mais visível se tivermos em consideração as baixíssimas taxas de sucesso do ecossistema. A esmagadora maioria das startups falha. Mais concretamente 90%, segundo os dados do relatório da Startup Genome publicado no ano passado. O "Global Startup Ecosystem Report 2020" estima que 9 em cada 10 startups irão falhar e estatísticas adjacentes reforçam este número opressivo. Há uma romantização do espírito empreendedor e dos impérios que começam em garagens que não leva em conta a sua raridade, e é por isso que a Failory me parece tão incrivelmente boa ideia.

Trata-se de uma plataforma criada por um universitário argentino, Nicolás Cerdeira, que se foca em exclusivo no falhanço de startups, conhecidas ou desconhecidas. A Failory tem um podcast, um blogue, uma zona de entrevistas, um eBook e um cemitério de startups, onde são dissecados os fracassos de mais de duas centenas de empresas.

Aqui encontra-se, por exemplo, uma análise ao fiasco recente da Quibi, que durou apenas dois anos e queimou 1,8 mil milhões de dólares aos investidores. Estão também disponíveis retratos do encerramento da Vine, Zulily, Gowalla, Rdio, Grooveshark e 37Coins, entre muitas outras, incluindo bizarrias como a Juicero e a Theranos. Cerdeira tem uma newsletter semanal onde reúne este tipo de conteúdos e esta já chega a mais de 6 mil fundadores, segundo indica no site.

A ideia é explorar o que correu mal e extrair daí lições valiosas, que os fundadores de hoje em dia possam aplicar antes de torrar milhões em conceitos falhados. Nos dados compilados pela Failory, as razões mais comuns para o falhanço são erros de marketing, problemas na equipa, problemas financeiros, problemas técnicos e/ou operacionais e, acima de tudo, uma desconexão entre a oferta e o mercado. De forma simples, muitas startups desenvolvem produtos ou serviços em que ninguém está interessado.

Com o sucesso da Failory (cujo nome junta "failure" - falhanço - e "story" - história), Cerdeira ampliou os conteúdos para mais que entrevistas a fundadores que falharam, contendo agora outros tópicos úteis para empreendedores. Mas este mantém-se o foco da plataforma e é muito interessante que assim seja.

Arthur C. Clarke disse que a tecnologia, quando suficientemente avançada, é indistinguível da magia. O conceito é fascinante, a ilusão é que não. Ainda que o empreendedor precise de uma dose de idealismo para se lançar ao desconhecido, as hipóteses de que a startup sobreviva aumentam quando os fundadores têm noção dos riscos.

Na verdade, é mais provável que uma startup sobreviva quando os fundadores são mais velhos, uma estatística que foi confirmada num estudo maciço do U.S. Census Bureau e dois professores do MIT. A obsessão colectiva com o fundador-prodígio, as histórias de garagem e as fortunas auto-geradas alimenta um mito de glória pessoal que não é assim tão útil para o ecossistema de inovação. O erro, mais que a fantasia embrulhada em bolas de sabão que sobrevoa Silicon Valley, é um excelente professor.

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